Bebida de anjo

picture (47)Poucas vezes, como há alguns anos, tão claramente entendi que saber e sabor convivam em tanta intimidade. Nas origens dessa “última flor do Lácio”, saber e sabor entrelaçavam-se numa mesma palavra, “sapere”. Daí, o “sapor”. Dizer que algo “sabe a morangos” significa que tem sabor de morangos. Pode-se, pois, saber saboreando. É o sabor de um saber da sabedoria dos sentidos. Um menino, com grave deficiência mental, João Gabriel, acabou, indiretamente, por me fazer melhormente entender saber e sabor. Pois o garoto sabia através do sabor. O relato me comoveu.

Cultivo, em Campinas, amizades queridas, e uma delas foi a do J.Toledo, consagrado escritor e cronista, de sensibilidade aguçada, que nos deixou. Certa vez, recebi, dele, um e-mail dizendo do menino João Gabriel, filho de pessoas que lhe eram queridas, criança com irreversível deficiência mental. Pouco ou nada sabia ou entendia, o pequeno João Gabriel. E poucochinhos, seus prazeres, alegrias simples. Uma das raras delícias que João Gabriel apreciava e pedia nem o J.Toledo conhecia: gengibirra. Mas, para a criança, tinha que ser gengibirra especial, a única que o encantava, gengibirra de Piracicaba. Sem saber se existia e onde encontrá-la – e querendo fazer a criança feliz – o J.Toledo enviou-me o rótulo da bebida milagrosa: “Gengi-birra R.Orlando”. A nossa “gengibirra do Orlando”

Ter-nos-íamos esquecido de que os deuses falam pela boca das crianças? E Piracicaba, até quando continuará banalizando tesouros que tem, preservados apenas pela teimosia de alguns para não se perderem em definitivo? A gengibirra é quase secular em nossa região, mal se sabendo se há quem mais a fabrique em outros espaços. A família Orlando produz o refrigerante já na quarta geração, desde o início do século com Vicente Orlando. É como se se repetisse a melancólica história da pamonha, conhecida em todo o Brasil e esquecida entre nós. Ou da pinga de Piracicaba que ninguém mais sabia onde estava.

A gengibirra foi especiaria à mesa de todas as famílias piracicabanas. Gengibirra, cotubaína, etubaína. Eram calorosas as discussões intelectuais sobre a origem da palavra. Para uns, era “jinjibirra”, néctar indígena à base de gengibre. Para outros, “ginger beer”, cerveja de gengibre, mas em forma de refrigerante. Se, hoje, assiste-se à “guerra das cervejas”, tínhamos a das gengibirras, com torcidas radicais: a do Orlando ou a do Andrade, da família de Thales? Restou a gengibirra Orlando. E a Limongi, em Rio das Pedras. Mas piracicabano – como todo o país – sofreu lavagem cerebral, foi tomado de chiquê idiota e desprezou delícias da terra em favor de sabores estranhos. Pensemos: quantos refrigerantes há tão saborosos quanto a gengibirra?

Se uma criança campineira – quase que à margem da vida – tinha, na “gengibirra do Orlando”, um de seus poucos prazeres, fomos tolos por não entender: do Olimpo, deuses enviam sinais. Há, sim, uma “caipiracicabanidade”, um estilo “caipiracicabano” de viver e, portanto, uma cultura “caipiracicabana”. Onde o saber transpira do sabor das coisas: a pamonha, o peixe, a pinga, a polenta – esses nossos “quatro pês”, dos cinco sobre os quais já escrevi – o cuscuz. E a gengibirra.

Um anjinho, João Gabriel, pedia gengibirra. Bastaria ter sensibilidade de sentir: fôra aviso para Piracicaba retomar uma cultura adormecida. Saber, sabe-se também com o sabor. Os Orlando, comovidos, presentearam João Gabriel com gengibirras. Um santinho saboreou néctar dos deuses para aguçar a memória coletiva: Piracicaba, terra da gengibirra, bebida de anjos – não teria sido esse o recado do pequenino João Gabriel, de quem nunca mais tive notícia? Bom dia.

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