Berçário e toucinho

BerçarioOs mais próximos acompanharam – temerosos quase o tempo todo – o meu parto de mim mesmo. Foi, nos últimos meses, como que uma morte lenta, feita de cerimônias de adeuses. Na verdade, uma aventura pessoal totalizante: à medida em que me fui morrendo, lá me ia nascendo também. Era um ponto final e um ponto de partida; missão cumprida, outra a cumprir.

De tão complicado, não ouso explicar. Mas o fato é que eu me paria a mim mesmo e me via grávido do que me parece uma nova epopéia, essa vulcânica pressão dentro do peito, como se algo estivesse prestes a explodir em forma de palavras, frases. O homem parido morria para renascer grávido, quem pode entender? Meu coração entende e nunca, como agora, me sinto livre, liberto, preparado e maduro para contar essa história apaixonante de que fui espectador, ator, autor, cúmplice, réu, vítima, história de um tempo e de uma geografia. Até dormindo, ela me lateja no cérebro com detalhes que até me assustam de tão nítidos. Sou capaz de jurar que vi o mundo e o enxerguei ao sair do ventre de minha mãe, preso ao cordão umbilical.

Pois bem. Bênçãos caíram sobre mim, ainda mais abundantes e outra vez, quando meus filhos me encantaram com o encontro com parentes, amigos, sobrinhos, irmãos, cunhados, netos, sem se importarem se eu resistiria a tanta emoção. Resisti e ninguém sabia que, no mesmo dia de meus 70 anos – e na hora exata de meu nascimento, 10 horas da manhã de um dia de São João – dei início à longa história que minha alma me obriga a contar. Estava, pois, pronto o cenário, minha mesa de trabalho povoada por cadernos de anotações, livros de consultas, rabiscos que se foram juntando através de décadas de observações. Mas…

E não é que, realmente, nada se pode planejar? Pois, encerradas as cerimônias de adeuses, a alma lima como a de um recém nascido, todas as energias voltadas para o desafio que me aguarda, eis que me surgiu algo estranho: uma dorzinha na garganta, pontadas na cabeça, breves tremores de frio, sensação de cansaço, tossezinha fraca e seca. Admiti que, após tantas emoções e depois de tanta luta para matar o outro homem que fui, me estivessem frágeis as defesas, coisa passageira. Mas que, em vez de passar, piorou, foi piorando. E – sem sugerir qualquer maldade à campanha de vacinação contra a gripe – confesso que pensei em besteiras, xingando o ministro Temporão, Tinhorão, sei lá o raio do nome dele, o da Saúde. Pois nunca, ao longo da longa vida, eu tomara qualquer vacina contra gripe e sempre passara ileso. Agora, vacinado pela primeira vez, não é que sou levado a nocaute, escandalosa e fragorosamente derrubado à cama?

Há quase vinte dias, nada escrevo. E se a coluna sobreviveu devo-o aos cuidados da Taís, essa companheira jovem de todas as horas, que vai comandando A Província com galhardia e eficiência. Nos arquivos, ela escolheu crônicas já escritas e publicadas, anexando-as ao acervo eletrônico. E me assustou, pois percebi que coisas escritas há 20 anos ainda permanecem atuais, como se nós, humanidade, nada tivéssemos aprendido com erros e fracassos, tornando-os ainda mais alarmantes.

O fato é que, qual criança recém-nascida, fiquei preso ao berçário, um setentão ridiculamente derrotado por uma gripe que, quando parecia melhorar, piorava. Agora, já posso engatinhar em meu novo rumo, em direção ao sonho que não é mais o de conseguir escrever uma frase em sol maior – ou em lá menor – mas o de ir em busca não de um tempo perdido, mas do tempo vivido, do espaço percorrido, espectador de mudanças admiráveis, de conquistas e de fracassos retumbantes. Ou seja: apenas uma história humana que transcorreu, ao longo de quase um século, numa cidadezinha do mundo chamada Piracicaba. Daqui, olhamos o tempo e o mundo. E os construímos à nossa maneira.

Até onde irá, não sei. Mas há a pergunta que acompanhará toda essa história: cadê o toucinho daqui? E a resposta de sempre: o gato comeu. Os gatos, muitos gatos…Bom dia.

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