Bichos austríacos e político brasileiro

picture (72)Não costumo resistir a tentações. Ao contrário, por algumas, até gosto de ser provocado. Os sete pecados capitais, já os cometi todos. Alguns ainda os cometo. Uns mais, outros menos. Resistir, quem há de? Quando vejo, por exemplo, a Jeniffer Lopes ou a Beyoncé, não resisto e, prazerosamente, acalento tentações espontâneas, em especial as da gula e luxúria. E peco por avareza, pois quero-as só para mim. E se as vejo ao lado de namorados, enlouqueço de inveja e de ira, também meu orgulho atingido. Por elas, só não peco por preguiça.

O pecado da inveja, venho cometendo-o cumulativamente. Morro de inveja da biblioteca do José Mindlin. E voltei a ter inveja de político brasileiro, depois de mais esse escândalo, o do corregedor da Câmara Federal com seu castelo milionário. Na verdade, sempre tive inveja de políticos, especialmente daquele de que os mais jovens não se lembram, figura criada ao tempo da ditadura, o “senador biônico”. O povo não votava, era como se os deuses escolhessem um preferido. Militares julgavam-se deuses e Brasília era o Olimpo deles. O santificado ventre dos generais gerou essa singularidade maravilhosa, o “senador biônico”.

Conheci alguns deles. Havia um que nem chegara a coronel nordestino e se considerava vice-rei do Senado. O surrealismo lembrava o romano Calígula quando – tomado de loucura – tentou elevar a cônsul seu cavalo Incitatus, dando-lhe todas as regalias, fazendo-o até mesmo comer à sua mesa. Em Brasília, era quase igual. Aquele político nordestino mal sabia ler mas fora indicado para senador da República. E eu o via cercado de todas as mordomias, mandato de oito anos, regalias e salários régios, belas mulheres penduradas em seus braços caquéticos – eu o via e morria de inveja. E pedia aos céus a graça de ser senador biônico. Nunca fui atendido.

Coisas há, pois, que invejo sem remorsos. E, também, porque meus pecados eu os faço sem mais traumas antigos, sem elucubrações angustiadas em torno de céu e inferno. Serenei-me ao descobrir o purgatório como fórmula misericordiosa e genial da patrologia, a notável visão dos padres sábios. Raciocinei: para o céu, com toda a certeza, não irei; mas o inferno seria demais para mim. Desde que, por volta do século XI, se inventou o purgatório, encontrou-se a saída honrosa para os que ainda não merecem o céu, mas tampouco inferno. Pecar torna-se menos complicado: fica-se no purgatório como aprendiz. Purgado, o destino é o céu. E a Jeniffer e a Beyoncé, não valem um purgatório?

Certa vez, fui tomado de novos ataques de inveja: na Áustria, uma lei passou a garantir às vacas – vaca, vaca; não vaca, gente – três meses de férias, com todos os gozos. E aos cães e aos cavalos e aos bois e às cabras. Noventa dias por ano, os animais ficariam ao ar livre, sem entraves, em felicidade plena. Leões e tigres não mais poderiam ser apresentados em circos. Não sei se deu certo, mas a lei foi aprovada.

Nascer bicho na Áustria, portanto, é mais vantajoso do que ser trabalhador brasileiro, seja qual for a categoria. Uma das exceções fica para os políticos, dos nobres vereadores às suas excelências, deputados e senadores. Eles, muito antes das vacas da Áustria, já vivem felizes três meses de férias remuneradas com as delícias dos cargos.

Hoje, parece fora de moda, mas, antes, falava-se muito em metempsicose. Era a teoria da migração das almas de uns para outros corpos. Vulgarmente, acreditava-se que a alma humana, morto o corpo, poderia renascer até num animal. Decidi: vou tentar crer, com fé intensa, no sentido vulgar da metempsicose. E rezar para renascer como vaca austríaca. Ou, então, reencarnar em político brasileiro. Bom dia.

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