Boca suja

pictureQuando alguém me pergunta se eu gostaria de retornar ao passado, lembro-me de um meu tio, dentista dos mais conhecidos à sua época. Lembro-me e tremo. Pois me vejo com os meus sete ou oito anos, chorando de dor, o rosto inchado, um pedaço de casca de noz encravado na gengiva. Moleque cretino: quem falou que dentes são quebra-nozes? Feito o estrago, fui levado ao consultório do meu tio.

Ora, sei que não se deve falar mal dos mortos. Mas, até hoje – se eu fechar os olhos bem fechados – ainda vejo aquela mão peluda se aproximando de minha boca, mão de pugilista, motoniveladora, serra elétrica. O som do maldito motor – com roncos que ainda me lembram britadeiras – me penetrou no cérebro e nunca mais saiu. Por isso, quando vejo e ouço a moçada com tum-tum-tum, punk, funk, o escambal – é o som da cadeira de dentista que me trepida nos ouvidos. E odeio a mão daquele meu tio e tremo diante de aventais brancos, de dentistas do presente e do passado, tenho medo até do Tiradentes.

Eu não saberia voltar ao passado, ao lápis e ao caderno, à caneta tinteiro, à máquina de escrever. Entendo não sejam claros, a alguns leitores, muitos dos meus rabiscos. Do passado, o que me interessa é tê-lo trazido comigo, de ele estar acompanhando-me, de ser parte de mim. É essa consciência de ter caminhado, de vir lá de trás, que me permite maravilhar-me com o computador, pesquisar pela internet, render graças por nova e admirável tecnologia. Sem o passado, eu não saberia discernir. E, por outro lado, o passado permite divertir-me: é o melhor instrumento que descobri para poder contar vantagens a meus netos e aos mais jovens. Não é preciso nem mentir. Basta fantasiar. E, também da lágrima, faz-se uma história de amor.

Ora, voltar ao passado! Tenho, até hoje, uma cicatriz perto da virilha, no lado direito, mais de meio século após terem-me tirado o apêndice. No entanto, ainda recentemente, enfiaram-me sei lá quantas tranqueiras no coração e não há sinal sequer de uma ponta de agulha. E dentistas, hoje tão delicados, atenciosos, música ambiente, motorzinho que quase não se ouve? Meu tio, fosse agora, iria morrer de fome, Deus o tenha, mantendo-o, porém e por mais algum tempo, num bom purgatório para aprender a, nunca mais, tacar motor em boca de criancinha. Com aquela mão peluda, onde já se viu?

Não se trata, penso eu, nem de retornar, nem de avançar, essas tolices. Há o momento histórico e cultural de cada geração. Ora, quem leu Eça e Machado não entende Paulo Coelho. Quem ouviu Vinicius, Chico, Tom, como suportará a estranha eguinha potoxó, potocó, sei lá que diabo é isso? E um cavalheiro? Imagine um, à antiga, querendo, hoje, ajeitar a cadeira para a namorada sentar-se. Corre o risco de ouvir: “Qual é a sua, meu?”

Penso nessas coisas ouvindo o lamento de um amigo, acuado por grosserias, e indelicadezas. Ouvindo palavrões em novela de televisão, ele se lembrou: “Se eu falasse essas coisas, minha mãe me passaria sabão na boca.” Mas, hoje, não. O estatuto da criança e do adolescente deve proibir, não é?

É tolice, pois, desejar retornar ao passado. Tanto quanto o já se julgar no futuro. A nossa – dos vivos – é, talvez, a mais esplêndida oportunidade humana para construir uma civilização decente. Talvez, falte, apenas, a arte da cozinheira preparando o tempero: um pouquinho de sal aqui, pitada de pimenta acolá. Um pouquinho de humanismo na tecnologia; acolher a tecnologia nas humanidades. E respeito em tudo. Mas com sabão em boca de criança. Para o homem não vir a ser um boca suja. Bom dia.

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