Bolsonaro

O estranho em toda essa reação contra declarações do deputado Jair Bolsonaro – preconceituosas e lamentáveis – é haver quem ainda estranhe a estupidez desse deputado. Ele, desde o seu surgimento na vida pública – no mesmo PP que gestou Paulo Maluf – é um brutamontes moral incapaz de reconhecer a existência de princípios democráticos e de direitos humanos. É um apólogo de ditadores e de torturadores, nessa quase inacreditável incongruência de a democracia produzir, em si mesma, o germe de sua destruição. Há que se perguntar apenas: como pode uma democracia abrigar, em quadros partidários, alguém que negue a sua própria essência? E como pode abrigar e legalizar partidos políticos que emprestem sua legenda a personalidades exóticas que minem princípios democráticos e valores humanos?

Jair Bolsonaro não pode ser levado a sério. E, por isso mesmo, não deveria continuar na vida pública, já tão contaminada por políticos e partidos sem condições de conviver em sociedades civilizadas. Bolsonaro parece uma daquelas figuras patéticas descritas por Lombroso, para identificar pessoas inadequadas ao convívio social. Mesmo equivocadamente e sem valor científico, Lombroso traçou perfis. E Bolsonaro se enquadra em diversos deles.

Talvez, esses seus últimos ataques histéricos contra homossexuais e negros venham a ser a gota d´água que faltava para Bolsonaro ser, definitivamente, afastado da vida política brasileira, à qual ele não trouxe qualquer contribuição respeitável. Não se entende que, até aqui – mesmo com o conhecido compadrio existente na classe política – se tenha permitido que a famigerada imunidade parlamentar abrigue e proteja delitos que se não admitem em cidadãos sem mandatos eletivos. O espírito dessa imunidade é o de impedir que, no exercício de seus cargos, deputados e senadores não sejam tolhidos em sua liberdade de expressão, tornando-se vítimas de poderes externos. Mas não leva em consideração delitos comuns, como os que configuram calúnia, difamação, atentados à ordem e aos direitos alheios. Bolsonaro é um contumaz ofensor das liberdades democráticas, ao mesmo tempo que defensor quase fanático de ditaduras militares fascistas.

Não há, pois, que se estranhar a ignorância e a estupidez de um homem sem qualquer lucidez diante da vida democrática e civilizada. Mas isso não justifica a sua impunidade, pois o Congresso Nacional não pode abrigar alguém com esse espírito contumaz de delinquência social. Ao mesmo tempo, deveríamos, também, reconsiderar alguns dos papéis da imprensa brasileira, especialmente em se tratando de programas humorísticos como o CQC e assemelhados. Ao levar Bolsonaro ao palco da entrevista com o público, dando espaço a um terrorista de direita, o CQC não pretendeu nem informar, nem distrair, nem entreter. Simplesmente quis fazer graça com valores democráticos, usando de um homem notoriamente inadequado para a convivência plural. O que, num programa como aquele, Bolsonaro teria de bom, de útil, de sério para levar à opinião pública? O CQC brincou de jornalismo. E devolveu, a Bolsonaro, o espaço que lhe faltava no quase anonimato a que estava recolhido. O desrespeito parece ter-se tornado endêmico. Bom dia.

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