Brasil, mar de lágrimas

Neymar chorandoHá cerca de 10 ou 15 anos, venho insistindo naquilo que me parece uma sólida convicção ou, mais certamente, forte intuição. Refiro-me aos sinais cada vez mais claros do Eterno Retorno. Alguns dão de ombros, outros não se importam, muitos não entendem. Ou não querem entender. O Eterno Retorno não é volta ao passado. Mas uma purificação da alma humana, quer individual, quer coletivamente.

Quando falamos em fundo do poço ou luz ao final do túnel, estamos referindo-nos à expectativa de uma última opção: o retorno, a saída do poço, o encontro da luz. Há, na vida, momentos e eras em que nada mais há a fazer senão permanecer na encruzilhada que nos imobiliza. Encruzilhada é ponto de reflexão, lugar e momento de tomar decisões. Continuar indo ou voltar, derivar à esquerda ou à direita. Enfim, buscar o caminho. Quando se faz a escolha, há o retorno, a retomada, o reinício. E a vida –  a conclusão a que se chega –  é  tecida por esse retorno eterno. Permanecer ou continuar indo sem destino, eis aí o suicídio, o colapso.

Cada um de nossos dias é uma caminhada que, tendo início e meio, chega ao fim ao anoitecer. E que recomeça na manhã seguinte. Estamos, pois, sempre caminhando para, em seguida, retornar. Como as estações do ano, que se alternam, que chegam e se vão, recomeçando e retornando.

Os sinais desse Eterno Retorno – para mim, quase uma certeza – são cada vez mais claros, evidentes, quase palpáveis. Há um esgotamento no mundo, um cansaço profundo, perda de significados e de sentidos. E isso perdura exatamente há um século, desde o início da I Guerra Mundial e sua sequência – que parece interminável – de mais e mais conflitos, de outra guerra mundial, da ameaça de uma terceira. Desde o Iluminismo, insiste-se no “desencantamento do mundo”. E praticamente toda filosofia inspirou, numa visão dita mais objetiva, o materialismo que dominou a economia, a produção, a opção ocidental por um estilo de vida feito de vazios. A humanidade desumanizou-se.

O Brasil – com esta Copa do Mundo – tornou-se como que um moto contínuo de sentimentos, de emoções, de alegrias, de confraternizações, de paixões desafogantes. O ser humano – até mesmo sem desejá-lo – redescobriu os seus próprios olhos, estes que expressam o que nos vai na alma e no coração. E, de repente, as lágrimas surgiram, escapando dos olhos e correndo por rostos que se haviam esquecido de chorar. Os hinos nacionais despertaram raízes espirituais que pareciam mortas. E, então, aconteceu esse espetáculo revolucionário, esse cenário admirável de fraternidade, de humanismo, de solidariedade, de emoções: homens, mulheres, criança s, idosos – de todos os países, de todas as raças – chorando juntos, misturando suas lágrimas, de mãos dadas na alegria e na tristeza.

O materialismo, sob todas suas formas, inventou que “homem não chora”. E, por acreditar-se nisso, criaram-se  robôs, pessoas sem alma, amargas, barris de pólvora surgida de sentimentos refreados, de emoções contidas. Quem não chora envenena-se. Mata a sua própria alegria e conserva sua dor. A lágrima “é gota que morre, evaporando-se depois de dar testemunho.” Chorar, derramar lágrimas é, pois, dar testemunho de humanidade, de coração pulsante, de alma aberta a todas as circunstâncias de nossa admirável aventura de viver.

O Eterno Retorno revela-se, sim, também nas lágrimas que inundaram o Brasil, que se espalham pelo mundo, a partir de corações escancarados por emoções e sentimentos festivos. Até antes da Copa, éramos apenas ostras do mar, fechadas em si mesmas. Agora, as ostras abriram-se, revelando as pérolas que estavam aprisionadas. Cada lágrima que escorre no solo brasileiro é uma pérola brotando de corações que, no Brasil, recuperaram a sua própria humanidade.

Um pensamento antigo reflete o milagre da lágrima, do choro humano: “Bendito o homem que chora, pois ele é digno dos olhos que tem.” O Brasil – com sua vocação para o belo e para o bem – foi o palco, pelos céus escolhido, para  que multidões estejam sendo dignas dos olhos que têm. E que – nesse retorno de humanização –  se tornaram benditas. Bom dia.

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