Caçando fumaça

picture (10)Numa das versões do filme “Titanic”, uma cena tornou-se representativa de um tempo de alienações e de fugas, o da belle époque anterior à Primeira Grande Guerra. Nela, revelando o esnobismo de uma época e o autismo moral de uma elite, a dama inglesa recusa-se a sair de seu camarote sem, antes, maquilar-se e vestir-se como que para uma noite de gala. Morreu entre plumas. O autismo moral impediu-a ver a realidade como tragédia.

Em meu entender, um dos símbolos de autismo diante da tragédia política e moral brasileira está na obsessão do governador José Serra contra o tabagismo. A educação brasileira, incluindo a de São Paulo, faliu. A saúde está em frangalhos. A ordem moral do país entrou em colapso. O desespero ronda milhões de desempregados. As ruas, atulhadas com crianças cheirando cola e destruindo-se com drogas. O ministro da Justiça declara a inutilidade dos presídios: “são fábricas de criminosos”. E José Serra determina que se criem verdadeiros pequenos exércitos de funcionários do governo para punir bares e restaurantes que permitirem fumantes em seu recinto.

Isso soa a humor negro ou a uma insensibilidade social que lembra Maria Antonieta, impassível diante da rebelião popular. E, por mais mau gosto revele, mostra o desrespeito da classe política – com o silêncio conivente de certa imprensa – para com a população. Inventam-se factóides, criam-se caçadores de fumaça, provocam-se discussões periférica para se fugir ao núcleo verdadeiro da dramaturgia nacional. Cortinas de fumaça são, ainda, recursos eficazes para enevoar a verdadeira paisagem.

Ninguém é contra o enfrentamento ao tabagismo, nem como a qualquer forma de vícios, incluindo os da corrupção. Mas um mínimo de reflexão mostra quanta hipocrisia e farsa há nessa lei esdrúxula que nasce para não ser obedecida. Ora, segundo José Serra, a lei visa à proteção dos não-fumantes. E, condescendente, José Serra diz resguardar o direito de as pessoas fumarem em suas residências. Essa é uma contradição insustentável, mostrando a fragilidade de propósitos insinceros. Se fumar em ambientes fechados prejudica a saúde de terceiros, como ficam crianças e adolescentes, a família de fumantes, sujeitos ao mal dentro das próprias casas? Se pais prejudicam a saúde de seus filhos, não deveriam, como fumantes, ser alcançados pela legislação que protege crianças e adolescentes? O lar não é indevassável quando, dentro dele, se cometem delitos contra vítimas indefesas. A lei de José Serra empurra fumantes para dentro de casa. Côa mosquitos e engole elefante. Em tempo: sou ex-fumante.

Com sua omissão, incompetência e egoísmo, a classe política levou o Brasil ao naufrágio moral. A grande luta pelo retorno à democracia resultou nula, pois o que conquistamos foi um arremedo que apenas oculta outra ditadura, a dos autocratas dos partidos políticos e uma oligarquia nacional de velhos e novos coronéis. Cortinas de fumaça impedem-nos de perceber a cólera santa nascendo do ventre do povo. O Titanic vai a pique nesse imenso naufrágio moral, enquanto Brasília ainda se maquila e veste roupas de gala para seus bailes diários.

Temos, sim, que defender, com todas as forças, a democracia e as liberdades democráticas, desde que sejam verdadeiras, honestas, legítimas. O que, porém, aí está não passa de uma engenharia jurídica para legitimar feudos, capitanias hereditárias, minorias privilegiadas, bandos corporativistas.Agora, houve metástase e o câncer se espalhou. Está nas esquinas, nos supermercados, nas ruas, nas instituições, uma corrupção endêmica, pandêmica. E, mesmo com caçadores e com cortinas de fumaça, os sinais estão cada vez mais claros: a farsa de democracia apenas disfarça a anarquia. A corrupção da classe política sempre foi o ovo da serpente. Ainda é. Bom dia.

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