Caduquices, fé, esperança

picture (11)Escrevi a respeito de caduquices, de coisas e pessoas que caducam. Ora, “tempus fugit”… E por lá fugir o tempo, passar, ir-se – coisas e pessoas amadurecem, envelhecem. Algumas até apodrecem. É a caduquice. Pois tudo caduca. Por isso, nas pessoas, mais do que “miolo mole”, entenda-se caduquice como prazo vencido, material que se vai estragando. Dona de casa sabe dessas coisas. No supermercado, na farmácia, fica atenta para ver se o produto caducou, se o prazo de validade venceu. “Tempus fugit”, tudo caduca.

Também acontece comigo. Sinto-me, ultimamente, caducando, tempo de validade indo-se, prazo acabando. No entanto, em vez de choramingar, parece-me uma bênção. O caduco cria fantasias, mistura ficção com realidade, confunde aquilo que é com o que gostaria fosse. Fica-se com memória seletiva, escolhe-se apenas o que agrada e convém, lembra-se tão somente do que foi bom. E, para viver feliz, transforma fatos em versões, faz versões tornarem-se fatos. É uma delícia. O único problema é a realidade. Pois, diante dela, a porca torce o rabo.

Nos últimos tempos, tento impedir duas realidades me roubem delícias da caduquice: políticos e o Corinthians. Pois, diante deles, a porca de minhas fantasias torce o rabo e sou obrigado a refletir e a olhar-me para mim mesmo: “Tudo bem, ô, meu. Se ficou caduco, isso faz parte da vida. Mas ser idiota é outra coisa.” Tem sido assim: Corinthians e a política fazem-me sentir idiota completo e acabado. Ou feito mulher de malandro. Que ama e gosta de apanhar. Por ser, a paixão – também ou especialmente – uma forma de idiotia, agonio-me na caduquice: por que ter, ainda, esperanças em políticos; e tanta paixão pelo Corinthians, por quê?

A caduquice faz a memória brincar com o tempo. Misturam-se, então, o passado e o presente, confundem-se coisas e espaços. Fico assim: já aconteceu, irá acontecer? A esse filme, já assisti ou invento o roteiro? Na confusão, política se torna como o arroz doce de minha tia, sobre o qual já escrevi e pouca gente acreditou. A gula por aquele arroz doce quase me enlouquecia. De pensar nele, vinha-me água à boca; à falta dele, eu tinha medo de ficar com lombrigas. Pois sou do tempo em que ter vontade dava lombrigas. Por isso, nunca passei vontade. Por exemplo: amei a vida toda, amei a mais não poder, amei até enjoar – para não ter lombrigas. Mas esse é outro assunto. Voltemos ao arroz doce. E à política e a políticos. Ou eles todos ao mesmo tempo, por que não? Pois enjoei.

De tanto comer, enjoei do arroz doce familiar. E, de conversas de políticos em ano eleitoral enjoei também. Eles não conseguem mudar o discurso. E, então, me parece que o coronel de ontem é o mesmo de hoje. Ou que o de hoje, mesmo em nível municipal, nada mais faz do que imitar o de ontem. Sinto-me caduco entre pessoas e coisas que não sentem a caduquice própria. E então, ao misturar razão e esperança, a caduquice me expõe ao ridículo.

No jogo em que o Valdívia marcou o gol e zombou de corintianos, chorando, tal ainda era a minha paixão que, faltando dez segundos para terminar o jogo, fiquei gritando, berrando, suando: “Vai, negadinha, vai. Ainda dá tempo.” E, de certa forma, é o que fico fazendo em relação a Lula: “Vai, Lula, vai. Ainda dá para ganhar.”

Pena que “tempus fugit…” Mas a vantagem está em Lula ser corintiano e ele, diante do caos em que o país estava, ter explicado: “Tenho fé, sou corintiano.” É o tipo de cadquice que se não explica. E bom dia.

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