Cãezinhos no divã

picture.aspxHá algum tempo, uma revista semanal publicou reportagem especial, preocupando com a situação dos animais domésticos. Segundo a revista, eles estariam compartilhando dos “maus hábitos do homem”, de seus donos. Em dolorosa observação, revelou que grande parte dos cãezinhos “passa o dia só, com comida à vontade, passeios escassos e almofadas à disposição para uma longa e tranqüila soneca”. A gravidade está na conseqüência disso: “os animais comem mais calorias do que gastam, exercitam-se menos do que precisam e acumulam mais gordura do que o recomendado”. Tornaram-se cãezinhos obesos, tragédia que atinge três em cada dez cachorros.

Diante do grave problema, surgiram, nas principais capitais, “spas para cachorros”, clínicas com esteiras rolantes, piscinas e espaços de recreação com “personal trainer” para os animaizinhos domésticos. O exemplo de “Billy”, um cão beagle de 8 anos, impressionava. Ele estava com asma, os médicos o examinaram e detectaram o problema: sedentarismo e alimentação inadequada e excessiva. Com aulas de natação, esteira e alimentação correta, “Billy” emagreceu sete quilos e, segundo a dona dele, “recuperou a auto-estima.

Por outro lado, pela internet, uma agência (www.agpress.com.br) divulgou preciosas informações sobre traumas dos cãezinhos modernos. Há um novo profissional, o psicólogo de cachorros. Uma especialista, a dra. Kátia Aiello, alerta para o perigo de os donos transferirem seus problemas pessoais aos animaizinhos. Ela cita casos de mulheres que – considerando-se, na infância, rejeitadas pelas mães – levam essa tristeza aos cãezinhos que, vendo-as sair para o trabalho, ficam ganindo e chorando pelo abandono, coitadinhos.

São solteiros, dois terços dos pacientes de Kátia. Moram sozinhos e, segundo a psicóloga, são os bichinhos que ajudam suprir-lhes o vazio emocional. Kátia invoca testemunho de pacientes para garantir que a ligação afetiva compensa, pois algumas delas, sabiamente, dizem: “Os namorados passam, o cão fica.”

Outro problema alarmante: quando os cães evacuam, se o cocô deles não for recolhido, isso é sinal de rejeição. Eles sofrem mais. Então, conforme sugestão do site, a saída está em adquirir um novo produto: reservatório com saquinhos plásticos, vendidos com poste ou sem poste, para casas e apartamentos ou condomínios. A jornalista Majô Jardim tem maiores informações. Na internet.

Portanto, não devem ser levadas muito a sério o abandono de crianças em nossas ruas, muitas delas drogadas, estiradas no chão, aos olhos dos passantes. É uma paisagem banal. Diz-se que há menos de 50 meninos de rua em Piracicaba. Se uma sociedade não consegue atendê-los, isso não significa seja, ela, incapaz, insensível ou fracassada. O problema é o ser humano, visto cada vez mais como descartável. Basta ver a correspondência de leitores nos jornais: a revolta é total diante de maus tratos a gatos, cãezinhos e até a capivaras Mas dolorosos, os silêncios diante da pessoa humana aviltada.

Talvez seja também a isso que se referiu João Paulo II, ao falar de “desvios afetivos”. Mas é chato ouvir. Refletir cansa. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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