Caipira teimoso e rejeitado

picture (24)A rotina do XV de Novembro transformou-se em saga. E a sua resistência para não sumir do mapa, para não se extinguir em definitivo é heróica. Uma das soluções para salva-lo, devolvendo-o a seu lugar de glória no futebol de São Paulo foi a proposta, há alguns anos, de se autorizar o SEMAE a estabelecer convênio com os “Amigos do Nhô Quim”, para, na conta d’água das famílias piracicabanas que o autorizasssem, acrescentar-se R$1,00 para ajudar o XV. Á época, alguém me fez os cálculos dizendo que, com um real, podia-se comprar cinco pãezinhos. Para pessoas famintas e desprovidas de renda, isso é uma fortuna. Para o XV, era apenas manifestação simbólica, quantia que, para a maioria do povo, não lhe altera a vida.

Mas por quê os apoios não aparecem, por que o XV não se levanta? Adilson Maluf, que ora deixa a presidência por motivo de saúde, era reconhecidamente um homem com experiência administrativa. E fracassou.Talvez, estejamos precisando colocar os pingos nos iis e não queiramos faze-lo.

Pouca gente animou-se a ajudar o XV. E com razão. Desde a morte de Romeu Ítalo Rípoli, houve malandragens incríveis, incompetências, adulterações, mentiras, surgiram verdadeiras quadrilhas de aproveitadores. Os mercadores invadiram o templo, o XV se tornou balcão de negócios nem sempre legítimos ou lícitos. A vergonha cobriu a bandeira quinzista e até as cores do clube foram mudadas. Quando a TAM botou o vermelho na camisa alvi-negra, cometeu uma heresia que não se perdoou: era o vermelho da vergonha. Quem se envergonhou afastou-se. Agora, porém, é hora de voltar. E de abraçar a causa.

Testemunhei o entusiasmo de piracicabanos quando o presidente da “Associação dos Amigos do XV”, o médico Paulo Tadeu Falanghe, fez prestação de contas, mostrou a situação do “Nhô Quim”, as perspectivas, as nuvens negras que quase se dissiparam. Não é o E.C.XV de Novembro, envolto em crise e dilemas, que irá administrar a nova caminhada, mas os “Amigos do XV”, uma plêiade de piracicabanos idealistas que, acima de tudo, entendiam o significado do “Nhô Quim” como patrimônio nosso e como ícone para impulsionar o desenvolvimento local..

Piracicaba sempre foi berço de cultura, de ciência, de artes, de trabalho. E de um estilo diferenciado de viver, com símbolos especiais. Um leitor, ainda estes dias, lembrava lá de Rondônia: terra da gengibirra, da polenta, da pinga, da pamonha, do peixe – como realidades quase que tão exclusivamente nossas. E do “Nhô Quim”. Que é marca, que é “griffe”. E impulso e chamariz para todo projeto desenvolvimentista de Piracicaba. Por onde se vá neste país, ouve-se: e o “Nhô Quim”?

Cidade alguma tem um ícone de cultura popular como a figura do “Nhô Quim.” O Brasil dá de ombros ao “Jeca Tatu” grotesco ; o esperto Joaquim Bentinho, de Cornélio Pires, não se popularizou. Piracicabanos, porém, temos um símbolo apenas nosso, nesse refinado estilo caipira de ser que encanta o país: o “Nhô Quim”. Perdê-lo seria como tirar o Pinóquio das histórias infantis.

O que parece faltar é um comandante com liderança forte, com reconhecimento popular, que conte com o entusiasmo da população. Os nomes do passado são sinignicativos. Alguns deles, desculpando-me, por antecipação, por omissão de alguns: Gerôlamo Ometto, João Guidotti, Luciano Guidotti, Antonio Romano, Romeu Ítalo Rípoli, Bento Dias Gonzaga, Humberto D´Abronzo, Gustavo Alvim, Doutor Antonio Cera, em quase 100 anos de história iniciada com a paixão de meia dúzia de piracicabanos e o ardor do Capitâo Wingeter.

Provado parece estar que não adianta apenas experiência e tino administrativos. Sem carisma, sem confiança popular, sem a comunhão com o povo, o Nhô Quim continuará, infelizmente, sendo esse caipira valente e teimoso, mas abandonado. Bom dia.

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