Calhambeque revisado

CalhambequeNão digo tenham sido alegrias, mas uma das minhas mais gratas satisfações foi saber que formidáveis carros novos, de marcas famosíssimas – Honda, Nissan, entre outras – foram tirados de circulação por apresentarem defeitos. Carro novo e gente moça, quando têm problemas, são, quase sempre, graves. Por outro lado, carros antigos, calhambeques, de conserto em conserto, vão em frente, suportando trancos e barrancos. Com idosos, acontece o mesmo. Conserta aqui, dá um jeito ali, revisa, repara, ajusta, reforma – e a vida continua. Alguns dizem ser o mesmo que vaso ruim, difícil de quebrar.

Pois é. As moças da redação deste jornaleco eletrônico, a Taís e a Carla, assumiram o comando das atualizações, escolheram textos de caráter histórico, outros ainda atuais e, enquanto isso, o escriba que vos escreve – já usado e antigo calhambeque – sujeitou-se a cirurgias, acertos, aperto de parafusos, consertos de latarias, troca de pneus, aproveitando que o motor está em ordem e com capacidade muito grande de ainda rodar por aí.

Ora, não me recordo de ter ficado mais de vinte dias sem escrever, a cabeça nas nuvens, atordoado com medicamentos e obrigado a repouso. Pensei morrer de tédio e, se se consertava de um lado, a pressão arterial subia por falta de atividade. Fiquei em meu canto vendo o mundo rodar. E, curiosamente, percebi como gira sem qualquer novidade, repetindo-se monotonamente, o inferno do cotidiano de violências, de desrespeitos, de individualismos cruéis.

Custei a aceitar a inatividade, o corpo quase imobilizado mas a cabeça, ainda que sonsa, querendo funcionar, neurônios atropelando-se uns aos outros, uma estranha e surpreendente nova percepção e visão das coisas. Pois, de repente, vendo as mesmas tragédias de sempre, os mesmos esforços para suicídios coletivos, vi-me perguntando: “Que é que ando, ainda, fazendo por aqui?” E a resposta, insistente e provocante: “Você continua o idiota de sempre, acreditando em soluções coletivas quando, na realidade, a única solução é de ordem individual.” No fundo e na realidade, é aquela história dos sábios antigos: “se cada um limpar a calçada de sua casa, a cidade toda estará limpa.” Ou: “na escuridão, se cada um acender uma só vela, tudo se iluminará.”

Pois bem. Tenho um acordo com um deus que não conheço – ou com muitos deuses desse panteão mágico e milenar da humanidade – para eu morrer com 127 anos. Já estou revisando esse entendimento. Se o cérebro parar de funcionar, se eu não mais conseguir refletir, entender, pensar, se perder a capacidade de contemplação – quero o fim chegue o mais rápido possível. Quando, porém, vejo o Oscar Niemayer, centenário e todo lampeiro, fico animado e penso nos políticos malandros e provisoriamente poderosos que não percebem a lixeira para onde serão levados quando deixarem o poder.

O fato é que, obrigado a um descanso forçado, nada me restou senão um profundo olhar para dentro de mim mesmo. Que mais profundo se ia tornando à medida que retomei velhas leituras e velhos autores, o universo ilimitado do pensamento e das reflexões. E a mesma pergunta, quanto mais eu lia e estudava nestes dias de repouso forçado, insistia em cutucar-me a consciência: “O que é que você anda fazendo por entre a multidão de suicidas?” E por que insistir em campos de batalhas, se já lá se lhe foi o tempo de soldado?

Na divulgação da Copa do Mundo, a propaganda, com estardalhaço, anuncia quantos dias faltam para o torneio começar. Cada dia que passa é um dia a menos. Já acontece comigo: comecei a minha contagem regressiva. Cada dia é um a menos para eu chegar a meta que determinei me seja definitiva, a da virada, a de um fim para me ver, então, diante de um outro começo. Cada dia é menos um dia para eu completar 70 anos. Faltam pouco mais de dois meses. E, então, no dia 24 de junho, darei por encerrada uma história de lutas jornalísticas, de verdadeira prisão ao cotidiano, de uma envenenadora e perniciosa preocupação com política e com políticos. Será a minha decisão definitiva, a do isolamento final para mergulhar em meu tempo sabático, quando passarei a viver unicamente para relatar, escrever, narrar, registrar tudo o que vi ao longo da caminhada. O projeto está pronto e a ansiedade para realizá-lo é cada vez maior. Será meu tempo de vida sabático, de contador de histórias reais.

Agora, que o calhambeque foi todo revisado e aprovado pelos especialistas, poderei voltar a rodar por aí, nas ondas do passado para o futuro, narrando no presente que será futuro amanhã e, paradoxalmente, novamente passado. Hoje será amanhã, mas passará a ser ontem. Encerro um capítulo para iniciar um livro novo. Bom dia.

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