Campo de centeio

picture (100)Foi no início dos 1950, século passado, que o livro surgiu e conquistou o mundo. Críticos literários, como sempre, desancaram o autor, J.D.Salinger. Mas “O Apanhador no Campo de Centeio” acabaria por se transformar num dos mais notáveis romances da época, refletindo, de maneira cáustica, como era a juventude estadunidense daqueles anos. E, por conseguinte, a juventude mundial, já que a influência dos EUA se tornara irreversível.

Uma nova edição – esquisita e sem data – apareceu há poucos anos. Não resisti, fui reler o livro que marcou também minha geração. Aliás, de tal forma retomei antigas leituras que preciso modificar e renovar o contrato que fiz com os deuses. Pelo anterior, eu deveria morrer com 126 anos. Está em vigor. Mas percebi que os próximos 57 anos de meu contrato não darão para reler tudo o que precisa ser relido, muito menos ler o que precisa ser lido. Machado de Assis, por exemplo. A cada cinco anos, tem que ser relida a obra toda. O que foi entendido com a cabeça de ontem, não vale mais para a cabeça de hoje.

E, assim, com todos eles. Menos com Joyce, cujo “Ulisses” continuo incapaz de ler. É tido como um dos principais livros de todos os tempos, obra indispensável da literatura universal. Minha edição, já escrevi sobre isso, é de 1966, tradução do Antônio Houaiss. Não fui além das dez primeiras páginas, ainda que, de tempos em tempos, tente ler. Tento e não consigo. Conheci uma única pessoa que me garantiu tê-lo lido e entendido. Confesso não ter acreditado nisso. E Guimarães Rosa? Somente para ler “Grande Sertão: Veredas” eu precisaria de, no mínimo, dez anos de leitura diária.

Ganhei mais alguns livros no último Natal, dei outros de presente. E ouvi senhoras quase próximas dos sessenta anos declamando Camões. Já, para mim, Camões lá se foi e fico com as riquezas de Fernando Pessoa, descoberta e redescoberta a cada releitura. O livro permanece vivo. Dizia-se que, ao surgir, o rádio haveria de matá-lo. Depois, a televisão. Agora, que a internet irá levá-lo à extinção. Tolices. O problema é brasileiro, onde sempre foi dramaticamente baixo o nível de leitura. E isso explica tudo. Mas, no mundo, há como que uma explosão de leitores, certamente porque, quanto mais solitárias se vão tornando as pessoas, mais a literatura é redescoberta como fonte de sonhos, de companhia, de participação no mundo. Entrar numa livraria é o mesmo que adentrar um templo. E os sebos? São mergulhos no mistério, na expectativa de, de repente, encontrar-se um tesouro inimaginado.

Mas e “O Apanhador no Campo de Centeio”? E o confuso, angustiado Holden Caulfield? Enfim, vem-me uma certeza: é livro para ser lido na maturidade, com olhos e coração de quem atravessou a longa caminhada. Não sei, hoje, se os adolescentes iriam identificar-se com o universo caótico de Holden. Tenho certeza, no entanto, que os mais velhos – os que vivemos épocas tão diferentes, com limites definidos – conseguimos, retomando “O Apanhador”, rever quase tudo de nós mesmos, de um tempo, de um mundo. E ficar como que com um gosto amargo na boca quando Salinger, usando a voz de Holden, fala que ninguém devia contar histórias para ninguém. Pois, quando termina, “a gente começa a sentir saudade de todo mundo.” É assim, também na vida. Meu receio é virmos a ter saudade de 2008. Bom dia.

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