Carnaval, camisinha e o hotel

pictureNem se ouvem, ainda, sons de cuícas e tamborins, nem saíram os cordões às ruas – e vozes iradas aumentam o tom contra o uso de camisinhas. A lógica é cruel: que multidões se infectem com todos os vírus letais, mas não se atrevam a usar preservativos. Fico assustado. Pois conheci “camisinha de Vênus”, pela primeira vez, aos meus sete ou oito anos, no quintal do hotel de dona Rosa. Camisinha e sexo, pois, são mais antigos do que supõe a vã imaginação dos imperadores.

Ora, após a fantástica descoberta no quintal de dona Rosa, vim a aprender que a heróica e gloriosa camisinha é amiga dos humanos há milênios. Os chineses, na longínqua Antigüidade, envolviam lá os seus instrumentais masculinos em papel de seda untado com óleo. Já outros, menos refinados – japoneses, egípcios e até deuses gregos – usavam bexiga e intestinos de animais.

Guardo, porém, uma certeza: se governantes e líderes religiosos tivessem conhecido o quintal de dona Rosa, o mundo seria diferente. E melhor. Era um dos principais hotéis da cidade e minha família morava ao lado dele. Dona Rosa, a proprietária, devia ser a tentação do paraíso, a maçã. Pois bastava ela aparecer para os homens, fascinados por sua beleza, rodearem-na. Em mim, ficou a lembrança de seus vastos, imensos seios, o colo alvo, os cabelos ruivos, soltos, lábios luminosamente vermelhos, a risada provocante. Os homens desmanchavam-se. E eu, menino, me encantava com tudo aquilo.

Havia, entre o hotel e minha casa, um corredor quase labiríntico, passagem de serviços. De meu quarto, eu podia ver janelas de alguns apartamentos. E ouvir sussurros. Pela manhã, Zezo – meu amiguinho, filho da lavadeira do hotel – assobiava para irmos brincar. Eu era o médico; Zezo, o enfermeiro. E Cidinha, a paciente. Tínhamos sete, oito anos.

Um dia, vimos – jogadas no corredor – coisas esquisitas, parecendo bexigas. Mas diferentes daquelas de aniversário, bexigas coloridas que enfeitavam, que estouravam. Eram leitosas. Zezo correu, apanhou uma delas, chamou-me para vê-las. Todo feliz, levou-a à boca, quis assoprar, quando Moacir Boquinha – agregado de minha casa – gritou: “Pare, moleque. Isso é porcaria.” E arrancou a bexiga das mãos do Zezo, impedindo-me de apanhar outra das caídas no chão. Tínhamos sido apresentados às “camisinhas de Vênus” usadas. Os quartos de dona Rosa eram paraísos ocultos. E as bexigas faziam parte do mistério de luzes pálidas e sussurros.

Ao contrário de religiosos de hoje, Moacir Boquinha nos explicou, advertindo: “Logo, logo, vocês deverão usar essas coisas para não fazer filhos. “ E fazer filho, como é que se fazia? E a bexiga, – como ela impedia nascessem crianças? Moacir Boquinha tentou ensinar mas se confundiu e as partes desistiram de parlamentar.

Então, numa gloriosa manhã, Zezo assobiou com mais vitalidade, um silvo de vitória, de primícias, sei lá de quê. E, sob a mangueira, mostrou-me o grande tesouro: duas camisinhas – surrupiadas ao estoque do pai – que ele desfraldava como se fossem estandartes. Orgulhosos, valentes, exultamos: camisinhas, já as tínhamos. E agora?.

Zezo e eu – em nossos bravos e experientes sete ou oito anos – não soubemos o que fazer com elas. Então, à sombra da mangueira, tomamos a heróica decisão: já que estavam limpas, poderíamos assoprá-las. Como se fossem bexigas. E assopramos, assopramos. Até que estouraram. Foi a primeira vez em que usei uma camisinha. E não achei graça. (Ilustração: Araken Martins.)

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