Carnaval e a Boca do Diabo

picturePois é, meninos: eu vi. Nunca pude entrar na “Boca do Diabo”, mas eu vi. Foi, ao mesmo tempo, o apogeu popular do Teatro Santo Estêvão e a sua decadência. Escândalo e atração, fonte de mexericos, motivo de separações e de tragédias familiares, a “Boca do Diabo” foi o lugar proibido, o centro das orgias e bacanais carnavalescas. E, ao som das marchas-ranchos pelos alto-falantes da Rádio Difusora, a “Boca do Diabo” parecia provocar a Matriz de Santo Antônio, uma frente à outra. De um lado, Monsenhor Rosa e suas indignações; de outro, Baco, Momo, Dioniso e as meretrizes que desciam do Cano Frio.

As “pessoas de família” não deviam se aproximar da “Boca do Diabo”. Mas era tudo mentira, apenas um ritual de hipocrisia. Pois, escondidas entre as árvores do jardim, lá ficavam namoradas, noivas e esposas, querendo saber se seus homens estariam naquele lugar de pecado e de luxúria. Estavam. Fantasiados. Pais de família, homens respeitáveis, com máscaras e ao lado de prostitutas de seios voluptuosos, cabeleiras louras, escandalosamente pintadas com carmim. E os “viados”. Pois, naqueles tempos, não havia o eufemismo de “gays”, homossexuais, transexuais, travestis: “viado” era “viado”. “Jane” e “Zinho Muié” eram os “reis dos viados”. Em suas fantasias de rainha ou de baiana, eram a glória da cidade que tinha uma certeza: vestido de baiana, “Zinho Muié” era a mulher mais bonita do Carnaval piracicabano. Pois é…

Avaliasse, Piracicaba, a dimensão dessa historia da alegria popular, faríamos um monumento em praça pública a cinco negros humildes e inesquecíveis, patrimônios eternos do Carnaval piracicabano: o grande Zego, falecido há pouco e esquecido até mesmo pelas escolas de samba; o inesquecível Neguito e dois passistas incomparáveis, Felpudo e Vassourinha. Esses quatro homens eram como que súditos da grande rainha de ébano, eterna, a porta-bandeira inigualável, a majestática Neidona. Quem viu Neidona viu a Afrodite negra, a Vênus de ébano. E nenhuma deusa pagã teve súditos como Zego, Neguito, Felpudo e Vassourinha. Quando Vinicius de Moraes escreveu “Orfeu do Carnaval”, depois tornado filme, estava falando deles. Ah!, saudade mata!

A praça era do povo, Carnaval também. E as ruas centrais, o grande palco. Os cordões, ranchos, o corso pareciam uma cobra serpeando nas ruas principais, descendo a Governador, entrando pela 13 de maio, pela São José, desembocando na Praça. Aplaudindo, das escadarias da Catedral, aqueles corpos nus, o povo parecia dar testemunho de um sincretismo milenar, como os romanos no Coliseu: cristãos aplaudindo pagãos. Faltava apenas bimbalhar os sinos da Catedral saudando as danças frenéticas, a “carne vale”. Em silêncio, aguardavam as cinzas. Cada tempo é um tempo.

Dói, hoje, ouvir o silêncio sepulcral da Praça José Bonifácio. De templo do povo, tornou-se templo de bancos. No Carnaval, lá estava o altar de Baco, “evoé!” A “Boca do Diabo”, no Teatro Santo Estêvão; os bailes no Coronel Barbosa, no Teatro São José, no Cristóvão Colombo, todos eles no quadrilátero central. E os desfiles pelas ruas, as famílias nas calçadas, os ranchos, os cordões. Cordões eram procissões, imitaram as procissões. Daí, o povo render-se ao canto que soava como ladainha: “Ô, abre alas, que eu quero passar!”

Aquilo tinha nome e nós não sabíamos: comunhão, procissão ao som de marchas ranchos. E as marchas ranchos? É Carnaval, ainda há tempo de lembrar. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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