Carnaval, sexo e camisinha

CamisinhaA discussão acalorou-se e, de minha parte, fiquei apenas ouvindo. Eram jovens pais, com filhos crianças, discutindo a respeito de Carnaval e sexo, sexo e camisinhas. Fico cada vez mais entusiasmado de ver como “nada há de novo sob o Sol”, como há questões humanas que se não resolvem talvez por falta de clareza, coragem e decisão.

As opiniões dos jovens pais eram divergentes: dois deles, absolutamente favoráveis a que se doem camisinhas para os adolescentes também nos dias de Carnaval. E outros com posição inteiramente contrária: não há que se distribuir camisinha, mas educar para as crianças começarem a saber que sexo é questão séria, que não se trata de simples prazer e que, portanto, para exercê-lo há que se ter responsabilidade.

Esse ano, não sei. Mas logo que chegou à Prefeitura, egresso do ministério da Saúde, o prefeito Barjas estava feliz por distribuir camisinhas à mocidade, sem se preocupar com questões de ordem moral ou educativa. Prevenir contra a Aids e fim de conversa. O governo brasileiro, segundo o próprio Barjas me contou pessoalmente – já envolvido com sanguessugas sem que todos soubessem, mas antes de ter-se tornado censor de jornais – tinha um estoque de 200 milhões de preservativos. Farra pouca é bobagem.

A minha geração tinha pudores de falar em “camisinha”. Era indelicado. Havia que se lhe dar o nome romântico: “camisinha de Vênus”. Com mais delicadeza ainda, ia-se à farmácia e mostrava-se o dedo polegar, o famoso “mata-piolho”. O balconista entendia o sinal e, com discrição, entregava o pacotinho misterioso. O grande medo eram a sífilis, a gonorréia.

Essa batalha, da camisinha, a Igreja já a perdeu. Esbraveje, não adianta: a “camisinha” já tinha vencido antes. O homem a inventou muito antes de existir igreja católica ou protestante ou aquela, na esquina de minha casa, sei lá o nome que tem. Desde o velho Egito, os homens envolviam o sexo com camisinhas para se proteger contra mordidas de insetos e de répteis. Depois, usaram-nas para relações sexuais. Já sabendo de enfermidades ou para evitar filhos, eles utilizavam protetores para a genitália confeccionados em linho ou a partir de intestinos de animais. O Vaticano sequer aparecera no horizonte da humanidade.

Na mitologia grega, uma certa Procris resolveu o grave problema das relações sexuais com Minos, filho de Zeus, uma angústia do Olimpo. Pois Minos não podia gerar filhos: seu sêmen expelia escorpiões e serpentes. Procris, então, inventou uma bexiga de cabra, colocou-a na vagina, e colheu, protegendo-se, o sêmen furioso de Minos. Nascia a primeira camisinha, dizem.

Atribui-se aos chineses a primeira versão dos preservativos atuais: com tubos de papel de seda untados com óleo. Os japoneses também adotavam técnicas semelhantes. E na Idade Média, o diabo estava solto: pestes, doenças, pragas universais, doenças sexualmente transmissíveis devastando a Europa, chamadas de venéreas em referência às sacerdotisas dos templos de Vênus, que exerciam a prostituição cultuando a Deusa do Amor. Foi quando um famoso cirurgião, Fallopio, criou uma “bainha de tecido leve, sob medida, para proteção das doenças venéreas”: um forro de linho do tamanho do pênis e embebido em ervas. Inspirado, Shakespeare denominou-o “luva de Vênus”. Na Inglaterra, um certo doutor Condom, para o Rei Carlos não mais ter filhos ilegítimos, inventou um protetor feito com tripa de animais.

Essas informações venho-as divulgando já há alguns carnavais. Apenas para se confirmar que nada há de novo sob o Sol. E que o bicho homem continua cada vez mais bicho. E sexo tornou-se uma das mais rentáveis indústrias da humanidade. É o vale tudo. E, na realidade, pouca gente sabe o que está fazendo. Banalizada, a sexualidade humana é de uma vulgaridade repelente. De minha parte, olho a loucura a partir de minha janela. E entristeço. Bom dia.

Esta crônica foi publicada originalmente n’A Província em 18/02/2007

Deixe um comentário