Caros fantasmas

pictureGente muito racionalista só atrapalha as coisas. Ou, pelo menos, a mim, me atrapalha. Especialmente agora quando faço anotações para um livro que – após realimentar alma e corpo – pretendo escrever não sei se sobre os fantasmas de Piracicaba, se meus. Anotei alguns: Rosa de Jesus, Inhala Seca, o homem da capa preta, Júlio Bruhns, Nhô Lica, Zinho Muié, Neidona, Neguito, Monsenhor Rosa, multidão de fantasmas. Na minha história, pretendo fazer com que eles se encontrem discutindo o que vêem e o que pensam, como, quase todas as noites, o fazem em meu canto de escrever.

Só que, de repente, li coisas de intelectuais contestando fantasmas e, portanto, atrapalhando, roubando e destruindo os meus. Lembrei-me do que vi acontecer a um sobrinho meu, garotinho de cinco anos, racionalidade estúpida que devo já ter contado. Assustado, ele chorava por causa de trovões. Contei-lhe, então, a verdade: era São Pedro, arrastando o guarda-roupa no céu, indo para outro quarto, cansado dos roncos de seu amigo São Paulo. O menino se encantou.

Mas a mãe dele – presbiteriana austera e implacável, amante da verdade objetiva – fuzilou-me com os olhos: “É mentira dele. Isso, de santo no céu arrastando armário é bobagem. Trovão é resultado de encontros magnéticos, de nuvens que se chocam…” – falou a moça. O menino chorou ainda mais forte. A minha história – não cartesiana – tinha mais lógica, sentido e encanto.

Pois bem. Li – em filosofações de um intelectual chato – que fantasmas não existem e não podem existir. E, para ele, por um motivo muito simples: os mortos ou vão para o céu ou para o inferno. Se estão no céu, não seriam bobos de sair de lá e ficar passeando por aí. Se, no inferno, a prisão é tal que, de lá, não podem escapar. Um outro concluiu que fantasmas somente puderam existir porque os católicos inventaram o purgatório. E filosofou, explicando: em estando no purgatório, as almas vão e voltam, andam por aí, gemem, sofrem, pedem orações e auxílio. Deslumbrei-me: nunca imaginara fosse, o purgatório, tão genial invenção. E pensei nos pequenos castigos que damos a filhos, a alunos: são o purgatório deles. Depois, damos-lhes o céu. Pois não há inferno depois do purgatório. Tem lógica.

Pensando seriamente nisso, detestei ainda mais os chatos racionalistas. E decidi que preciso – com urgência e valentia – acreditar firmemente no purgatório, com certeza plena. Pois é lá que estão os meus fantasmas, único lugar onde podem perambular. Vejam, o João Chiarini. Jamais, em hipótese alguma – mesmo tendo sido comunista, “comedor de criancinha”, dizendo-se ateu – jamais, insisto, o João estaria no inferno. Mas, por outro lado, duvido tivesse ido diretamente para o céu. Pois seria uma injustiça, tal a língua ferina do João, suas artimanhas.

Ora, se não está no céu e nem também no inferno, e se é um dos meus fantasmas prediletos, torna-se óbvio, filosoficamente correto que João Chiarini esteja no purgatório. E todos os outros meus fantasmas também, incluindo Branca de Azevedo, Parafuso, Prudente de Moraes, Jacob Diehl Neto.

Aos parentes dessas almas ilustres, peço compreensão. Eu gostaria estivessem, todas elas, no céu, que outro lugar para Rosa de Jesus? Mas, instaladas no céu – ou no inferno – deixam de ser fantasmas. E eu ficaria sem os amigos dos silêncios de madrugadas sem fim. E, mais do que isso, sem os meus personagens. Sem almas penadas, como escrever um livro dos fantasmas piracicabanos? Não daria. E bom dia.

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