Casório comum de dois

picture (40)Ora, nada tenho a ver com caamentos gays, se serão legalizados ou não. Já escrevi antes, insisto ainda agora: o que me intriga é como eles serão nominados. Haverá o “eu vos declaro marido e mulher?” Pois, como já me antecipei há anos, perturbo-me com o nome das coisas, o gênero gramatical delas. Por que – pelo menos em línguas latinas – são, algumas, femininas e outras, masculinas? O que deu na cabeça dos nossos ancestrais tornando o Sol masculino e feminina a Lua? O latim e outras línguas têm o gênero neutro. Mas, nas neolatinas – como o português, o italiano, o francês, o espanhol – essa neutralidade esvaeceu. E acho que aí começou a confusão. Que continua até hoje.

Quase sempre, o gênero gramatical das palavras acompanha o gênero físico, o sexo real. Macho é masculino; fêmea é feminino, eis a obviedade do cotidiano. Daí haver o boi e a vaca, existindo e coexistindo. E o homem e a mulher, com suas complicações. Assim posto, pode parecer simples dar nome ao que é masculino, ao que é feminino, evitando-se confusões e dubiedades. Ora, confusões até existem. Mas no plano físico, não no gramatical. Porque – era o que se ensinava na escola antiga – além de substantivos masculino e feminino, havia o comum de dois, o epiceno, o sobrecomum. E ninguém estranhava. Por que, por exemplo, estranhar que a palavra amante seja nome comum de dois: o amante, a amante?

Portanto, havia – digamo-lo assim – palavras bissexuais desde o início da oralidade humana. Os que se dizem bissexuais – gays, travestis e transgêneros, sei lá mais o que – já existiam, preexistiam nas palavras. Por isso, comuns de dois e epicenos podem ser tidos como bissexuais ou gays, é só conferir: cobra, masculino e feminino; barata e pernilongo também. Ou alguém conhece pernilonga como fêmea do pernilongo? Barato é outra coisa, mas não macho da barata.

Artistas são comuns de dois: o artista, a artista. E o e a pianista; a e o violinista; o e a romancista. Até jornalista, quem diria? Nas redações, abundam comuns de dois: numa mesa, a jornalista; noutra, o jornalista. E, assim, caminha a humanidade. Que – com cobras, lagartos e jacarés – não sabe, a não ser examinando bem, quem é mais cobra, se o macho, se a fêmea. E qual jacaré é o macho, qual é o jacaré fêmea. Quanto ao lagarto, que se não ponha a lagarta como fêmea dele. Não é.

Há tempos venho pensando seriamente nisso por vir-me tornando ainda mais obcedado pela palavra escrita. Pior do que isso: obcedado e, quase sempre, obcecado. A preocupação aumentou a partir da notável mobilização de movimentos gays pelo casamento de pessoas do mesmo gênero físico. Eis aí a coisa: mesmo gênero físico. Ou seja: homem com homem, mulher com mulher. Não teria, então, o gênero gramatical antevisto a possibilidade de haver essa união de gênero físico? Se anteviu, por que essa nova modalidade não seria um casamento comum de dois ou epiceno?

Resolver-se-ia, talvez, parte de minha angústia de jornalista, agonia de escritor: em tais casamentos, qual o tratamento reservado aos esponsais? Quem é ele, quem é ela? Noivo e noiva, marido e mulher? Quem é quem? Mas relaxei. Pois há situações antecipadamente solucionadas pela gramática. E a palavra milagrosa –que poderei escrever sem mais profundas reflexões – é simples: consorte. Um será consorte do outro. Ou uma, da outra. Pois há – na previsão gramatical – o consorte e a consorte. Portanto, comum de dois, comum aos dois. Um ou uma é consorte do outro ou da outra.

Ou, então, cônjuge. Mas cônjuge era – veja que coisa! – substantivo sobrecomum. Em casamento gay, o sobrecomum cônjuge pode, também, ser usado. Se é comum, não seria incomum. Bom dia.

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