Castidade na hora final

picture (18)Os deuses, quando querem destruir os homens, começam por enlouquecê-los. Aconteceu nos Estados Unidos e apenas os tolos não o viram desde o momento em que George W.Bush chegou ao poder. Ele surgiu – e isso se acentuou a partir da loucura homicida do 11 de setembro – com a convicção de ser desses enviados especiais – anjo montado em um corcel negro, patas luzidias e ventas fumegando – preparado para a grande destruição. Se não for pela economia, será pela bomba; se não pela bomba, será pela escravização das almas. Tornou-se o espírito de Átila sobre o mundo. E o de Hitler.

Seria absurdo admitir que um presidente de qualquer país democrático viesse a interferir na sexualidade de seu povo. Aconteceu e ainda acontece também nos Estados Unidos, onde um Bush Júnior se tornou paradoxo diante da longa tradição libertária do povo estadunidense. Que Stalin, Hitler, Mussolini, Mao Tsetung tivessem preocupações com a vida sexual de sua gente, que Fidel Castro ainda as tenha – há que se compreender. Ditadores são o Grande Irmão – “voyeurs” por excelência – invadindo a privacidade de todos. Mas não se compreende que – apesar de Hollywood e a indústria do sexo do Grande Irmão do Norte – seja Mr.Bush o profeta da abstinência sexual.

Mas, mesmo no fim, o governo de Bush prega a abstinência sexual dos jovens, insistindo em limitar o “fornecimento de verbas federais apenas a instituições que preguem a abstinência sexual para adolescentes”. Isso atingiu entidades culturais, artísticas, educacionais, todas as que cuidam da educação e orientação sexuais. A maluquice político-religiosa alcança instituições que defendem uso de camisinha e de anticonceptivos como política sexual, quer para prevenção da AIDs como para evitar gravidez indesejadas ou precoces.

Ora, já em 2002, comentávamos que, se um governante se permite interferir nas relações amorosas das pessoas, iria, inevitavelmente, interferir em questões também sérias, seja de direitos humanos fundamentais como as de absoluto foro íntimo, de moral complexa, como aborto, eutanásia e, finalmente, a eugenia. Hitler começou assim. Em vez da educação dos jovens para o amor – na revelação da dimensão também amorosa da sexualidade humana – usa-se a catastrófica fórmula da proibição. Nisso, os Estados Unidos têm sido especialistas: para o álcool, crie-se a “lei seca”; para a criminalidade, a pena de morte; se cigarros viciam, imponha-se a proibição. Tudo o que contrariar o “establishment” deve ser anulado “in limine”. A pretensão imperial não admite contraditório.

Até aqui, eles inundaram o mundo com uma sórdida indústria pornográfica e sua pérfida visão sexual. Agora, querem castrar a juventude em sua descoberta da vida. Castidade não se impõe. É um valor verdadeiro e um bem magnífico, sim. Mas um bem interior e ético de tal forma feito de delicadezas que ninguém tem o direito de intervir, seja para impor, seja para criticar. O antigo império britânico vive, ainda hoje, dos males da moral vitoriana. Mr.Bush – tendo cavalgado do Texas para o mundo – tentou dar-nos aulas de sexualidade, aos Estados Unidos e ao mundo. Porque, depois de impô-las em seu país, haverá de querê-las para o mundo todo. Afinal de contas, segundo eles, “o que é bom para os EUA é bom para o mundo.”

É trágico ver um império ameaçado de ruir a partir da sexualidade viva de adolescentes e suas brotoejas. Há louco para tudo. Bom dia.

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