Cavalariços reais e republicanos

picture (46)Já há algum tempo, venho tentando, na vida, brincar de fazer de conta. E me agrado disso. Pois o “faz de conta” – descubro-o – é uma das poucas hipóteses de conseguir-se um mínimo de paz. Faço de conta que não ouvi, que não vi, que não entendi. Faço de conta que acredito em algumas tolices e que deixei de acreditar em princípios. Dentro em breve, vou fazer de conta que estou com esclerose total. E ficar sentado, vendo vôos de passarinhos.

Nessa aventura de ser e não ser, de fingir e de inventar, aproximo-me, cada vez mais, das fantasias monárquicas. Por que não uma monarquia constitucional, pelo menos até definirem-se as coisas, clarearem-se conceitos? Ora, se república é “res publica”, preciso entender: “coisa pública” e “cosanostra” são a mesma coisa? Mas Brasília me confunde, desisto. E encanto-me com as farsas monárquicas, preferencialmente com as divertidas atrapalhadas britânicas. Se tivéssemos família real, acabaria a audiência de novelas da Globo e Big Brother.

Na monarquia dos ingleses, a festa é permanente. Em cores e ao vivo. Até enterros reais são fascinantes. De minha parte – os deuses me perdoem por confessá-lo – delicio-me quando morre alguém da família real inglesa. Ou quando se casa. O espetáculo é sempre o mesmo: carruagens, cavalos, desfiles imponentes, o povo comovendo-se nas ruas, a família real absolutamente impassível, seja na dor, seja na alegria. Mãe não chora quando filho morre. E filho, se lhe falece a mãe, é como se nem sequer soubesse que ela existira. Não fedem, não cheiram. Existem apenas para ser vistos. E comentados.

A fofocagem nas monarquias é, ao mesmo tempo, terapêutica e pedagógica. Ninguém precisa interessar-se pela vida do vizinho, pois a família real está lá para isso mesmo: um pitada de malícia em cada dia, um escândalo por semana. Fofocagem de vizinhança é pobreza republicana. Gente monárquica tem família real para se divertir. Portanto, não pode ser infeliz um povo que, dia após dia, tem coisas a comentar, maledicências a fazer, todas impregnadas do charme da nobreza e de sangues azuis. Basta abrir um tablóide e já se “sabe da última” da família real. Uma gostosura.

Na monarquia britânica, a fofoca existe em tempo real. Arte e ficção amalgamam-se, harmonizam-se. Não há necessidade de inventar: está tudo lá. Nada se cria, tudo se transforma. Escritores são muito mais narradores do cotidiano do que ficcionistas. Que intelectual, por exemplo, teria imaginação para criar fantasia tão grande como a do Príncipe inglês vestido de soldado no Iraque?

A família real cria, inventa, faz. Não há monotonia. A arte imita a vida, a vida imita a arte, todos se divertem. E fico com inveja. Pois é brutal a diferença de requinte das besteiras republicanas brasileiras em relação às da monarquia inglesa. Até quanto aos filhos dos monarcas. Ou presidente brasileiro não é monarca? Ora, filhos de presidentes – como os de Brasília – usam da “coisa pública” como se fosse “cosa nostra”, nada acontece. Na monarquia britânica, a moçada vai até mais longe, escândalo após escândalo. Mas o “faz de conta” é inteligente. O Príncipe Charles – “fazendo de conta” punir o filho por besteira – mandou-o, certa vez, cuidar do chiqueiro de um dos palácios. Gente fina é outra coisa.

A diferença é que chiqueiros e cavalariças britânicos têm história. Não foi um cavalariço de Sua Majestade – o celebrado John Brown – quem conquistou o enlutado coração da Rainha Victória? Chiqueiros e cavalariças reais têm encantos. Confundir com a Granja do Torto é tolice. Dá para imaginar um filho de Lula ou de Fernando Henrique cuidando de chiqueiros? Ainda voto em Joãozinho Orleans e Bragança para rei. Gosto de requinte. Bom dia.

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