Cemitérios de saudade

O passado não é para ser revivido, retomado, reconstruído. Passado é herança com a qual a pessoa minimamente sábia constrói o presente. E que se não fale de futuro, pois esse é apenas expectativa, o vir-a-ser ou o que poderá jamais acontecer. Viver é a experiência única, presente, dom, graça, mistério. E tão imensurável que um único ser humano é, ao mesmo tempo, o berço e o cemitério de si mesmo. É berço em cada nascimento, pois todos os dias e cada vivência são o novo, seja lá quando eles, os dias, aconteçam. E é cemitério porque, também todos os dias, o vivo de cada um de nós morre, sendo-nos, de alguma forma, enterrado no coração.

Confesso estar, cada dia que passa, mais e mais encantado com os deslumbramentos que me fascinam na vida. Há milagres em cada momento, em cada coisa, em cada pessoa. O nome disso é religião, num outro e mais amplo sentido, que, para mim, me convence. Ora, a grande maioria aceita que religião vem do verbo religare, a religação, o homem com Deus. Mas há uma outra versão, mais ampla e generosa, que, a mim, me explica tudo: religião vem do verbo religere. E religere é contemplar. Logo, a vida em contemplação é vida religiosa. E vida religiosa é a da contemplação.

Não era sobre isso que, neste Dia de Finados, eu queria discorrer. Mas, de uma forma semelhante, passei a respeitar a catolicidade, encantando-me também com ela, quando me deparei com a origem da palavra católico. Para os latinos, católico tem o sentido de universal. Para os gregos, é integral, o kathos. Tudo muda de dimensão, de visão, de amplitude quando se entende por outro prisma: o católico não tem a universalidade do tempo e do espaço, nem a Católica é igreja universal; católico seria o ser humano integral, de plena integridade, e o Catolicismo, então, seria, a busca e a fonte dessa completude. É mais apaixonante, penso eu. E, então, eu me sentiria feliz se fosse em busca de me tornar esse homem integral, esse ser católico. No entanto, nesse sentido universal – da mesma forma como globalização e internacionlismos parciais – catolicidade não me anima. O católico, ser humano integral, é quem vive sua plenitude na caverna. Para mim, católicos foram Platão, Aristóteles, Buda, Jesus. O Cristianismo veio depois. E Cristo era judeu, nunca foi cristão. Essa alma integral existe desde a nossa mais longínqua ancestralidade.

Mas, na verdade, estou apenas querendo dizer que a experiência de viver termina em sepulcros, em coisas mortas, finitas, findas. Quanto mais se vive, mais se perde. E, de maneira simples mas difícil de ser compreendida, vamos transformando-nos em cemitérios da própria vida. De berços, passamos, a cada dia, sendo sepulcros. Cada ser querido – que morre antes de nós – é sepultado em nosso coração. Então, tornamo-nos cemitérios de nossas saudades. Os mortos queridos estão vivos dentro de nós. E, portanto, passamos a ser berços deles, dando-lhes vida em cada lembrança, em cada saudade, em cada recordação.

Quanto mais vivo, espanto-me ao entender que os vivos estão mais mortos do que os nossos mortos amados. Estes, os queridos, ainda vivem em nós. Os vivos insignificantes nem sequer existiram em nossas vidas. Logo, ser um cemitério de saudade é, penso eu, como ser um templo vivo de memória, um altar de celebrações. Em cada lembrança nossa, provocamos a ressurreição de nossos mortos amados. Eles vivem a partir das recordações dos que os amaram.

E, então, se entende a vida eterna. Que é eterna, em mim, enquanto a memória dure. Bom dia.

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