Centro da cidade: coração ou passagem?

pictureNão há quem – com um mínimo senso de civilidade – deixe de aplaudir medidas que visem enfrentar vandalismos, criminalidade, infratores. Piracicaba tem fraquejado diante deles. Ruas, avenidas, esquinas estão povoados por menores não apenas carentes, mas também infratores, por formas agressivas de prostituição. Essa situação cria inseguranças e receios, exigindo tomadas de providência e ação das autoridades. Diante de reações que começam a surgir, há, no entanto, que se refletir sobre elas. Pois algumas medidas, em vez de trazer soluções, podem ser fonte de novos problemas.

Percebe-se, em Piracicaba, o fortalecimento de uma consciência ecológica, de preocupações com qualidade de vida e com a própria memória da cidade e do município. A simples abertura de ruas, para passagem de veículos, nada resolveu. Pelo contrário, piorou, já que foi em sentido contrário ao que acontece nas grandes cidades do mundo todo, onde o “Centro da Cidade” se valoriza em benefício do pedestre.

Ora, talvez fosse preciso Piracicaba definir o que entende por “Centro”, qual o significado do centro na e para a cidade. Sendo entidades vivos, que se transformam, as cidades precisam ser entendidas ao longo de um processo, considerando o que os habitantes pretendem dela: há cidades para trabalhar, cidades para passear e cidades de viver. Piracicaba parece mais preocupada em atender o tráfego de veículos, em se mostrar para o turista e o visitante, esquecendo-se dos que a constróem em seu cotidiano.

Quase sempre, valoriza-se a História prioritariamente a partir de datas e de tempos, minimizando lugares e espaços. Mas a História transcorre e a vida humana acontece em espaços com limites, demarcações, com as suas noções essenciais de centro, periferia, fronteira, lugar de confrontos, onde ocorrem conflitos, disputas, demarcações e, finalmente, alguma forma de integração.

A noção de centro é a de coração, que se estende também para continentes, países, cidades. Na geografia, dessa noção servem-se, ainda, a economia, a teologia, a filosofia: Roma, centro do Império Romano e, hoje, centro da Igreja; Meca, centro do Islã; Washington, centro do capitalismo. Quem, do centro, olha o derredor, vê o periférico e o fronteiriço. Para o G-8, o Paraguai é um país periférico; o Mali, fronteiriço. Olhando, da rua Governador, Piracicaba consegue ver bairros periféricos que se organizam, que se integram e outros, ainda fronteiriços, em busca de sua identificação.

O movimento – seja nas civilizações, seja apenas nas cidades – é centrífugo e centrípeto: o centro, estendendo-se à periferia; a periferia, em direção ao centro. A fronteira está além, como se fosse o lugar inóspito, desconhecido e, portanto, tanto do sonho como do pesadelo. São realidades existentes desde as primeiras noções de aldeia. Delas, nascem preconceitos e exclusões, mas, também, interação e integrações. Uma certeza, no entanto, é determinante: o centro é coração; o coração está no centro. Também nas cidades, como órgão vital, ponto de irradiação e de convergência. Se é coração, tem que, também, significar generosidade.

A reação dos comerciantes da área central diante da violência é legítima e pode ser saudável. Mas não pode se assentar num conceito primitivo de confronto natural entre centro, periferia e fronteira, aquele defendendo-se destas. A óptica não pode ser excludente, mas de integração.

Mas o que é o centro de Piracicaba? Se for, apenas, um espaço para comércio e serviços, será um lugar de passagem. E, então, deve ficar por conta e risco de associações de comerciantes e de prestadores de serviços. No entanto, se for “o coração”, órgão vital, essencial, precisará de muito mais atenção e carinho do poder público, pois o cidadão esta acima do consumidor. Piracicaba parece precisar primeiro – e com urgência! – de cartilhas de civilidade. A barbárie recua diante da civilização.

A comunidade, talvez, devesse refletir: teria sido a periferia que deteriorou o centro ou foi o próprio centro que não se cuidou de si mesmo? Bom dia.

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