Chaminés e velhos barcos

picture (87)Quando aquele não sei quê mexe no peito, velhas e desaparecidas figuras vem-me à lembrança. O caipiracicabanismo é como doença e dá febre. O saudoso Antônio Romano – industrial e comendador da Igreja – sofria dela e, quando angustiado ou ansioso, dizia ficar com “uma nervosa”. Foi o que o matou, a “nervosa”, o coração explodindo acho que de tanta generosidade.

A “nervosa”, sinto-a ao ler artigos de nossos memorialistas que confirmam nosso “umbigo do mundo” estar no rio, às margens dele, nas pistas de índios e povoadores. Remexem tesouros: chaminés, lembranças do Tote, de pescadores, de olarias e de oleiros, de arte indígena. Lendo-os, penso em ioles, catraias, sandolins. E me vem “a nervosa”: e agora?

O novo vem das sombras. Apenas vontade não o torna benfazejo: há que se ter régua, esquadro, compasso. Se vier de escombros, o novo não prospera. Quem terá sensibilidade histórica para gerir, administrar, desenvolver espaços que, mais do que turísticos, são patrimônios culturais de um povo? Quais as regras? Qual o padrão? Como haverão, os moços, de respeitar um templo se não souberem de sua riqueza espiritual?

Certa vez, o Pedrinho Chiarini relembrou um alcaide anterior que destruiu paredões com inscrições rupestres, usando as pedras para construir piscinas públicas. Derrubaram-se palmeiras imperiais, bosques. Por espaços práticos, jogaram obras de arte em porões. Às escondidas, destruíram o Hotel Central para, no lugar marcado pelo sangue de Almeida Júnior, erguer-se uma garagem. E o palacete do Barão de Rezende, dando lugar ao vazio. Tenho receios. E, no buliçoso coração, dá-se-me a “nervosa” do Romano.

Num lugarzinho de meu jardim, qual minúsculo memorial, guardo relíquias: a placa do Hotel Central, “Praça da Catedral”; um tijolo e uma pedra do “campo do XV”; um vitral de 1897, primeira casa de meu pai; uma telha da casa de meu avô, na Santa Rita; uma pedra do salto, outra, do Itapeva. E duas telhas da Cerâmica São Paulo, de meu tio Elias, onde está a última chaminé da rua do Porto, ao lado do campo de futebol.

Mas, as ioles do Regatas, cadê? Cadê a “yole Piracicaba”, a embarcação do glorioso raide Piracicaba-Tietê, transportando – como se cada qual fosse um Ulisses – nossos remadores heróis, Silvio de Aguiar Souza, Osíres Tolaine, Braz Grisolia, entre outros? E as catraias, os sandolins?

Havia, na administração de José Machado, um tesouro abandonado num porão do Engenho Central. Eram barcos cujos cascos Júlio Nascimento escovava com carinho devocional. Caiaques de hoje eram, ontem, sandolins, barquinhos de um remo. E catraias, dois remos. E ioles, de dois a oito. Eles foram batizados, têm nome, ainda que jogados, esquecidos. Um é o barco “Júlio Nascimento”, outro o barco “Jacob Diehl Neto”, outro, o “Júlio Diehl”. E há um que – se a cidade não o quiser – gostaria de guardá-lo no memorial de meu jardim: o barco batizado com o nome Tuffi Elias, meu pai. No barco e sentado entre as pernas de meu pai, lá me ia eu pelas águas do rio.

Se ainda existir e se ninguém quiser, aceito-o. Para entesourá-lo junto às minhas telhas feitas na cerâmica da rua do Porto, ao pé da última chaminé – onde aconteceu o mais belo tempo das nossas vidas. Bom dia.

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