Cheiro antigo de homem

picture (18)Em crônica de jornal impresso, um jovem leitor fez-me, certa vez, pergunta surpreendente, talvez motivado por assunto que escrevi sobre John Wayne, Tarzan, caubóis, heróis de antigamente. Ou alguma referência a perfumes usados nos tempos do “escurinho do cinema”, já não me lembro. Então, veio a pergunta, insinuante, maliciosa: “E desodorante, sua geração não usava?”

Ora, nunca, antes, eu pensara em desodorante de John Wayne, galopando pelas pradarias e perseguindo índios. E o Tarzan? E o Errol Flynn – em seus duelos memoráveis de flibusteiro dos sete mares – como haveria de preocupar-se com perfumes em suas batalhas épicas? Imaginar o Tyrone Power aspergindo desodorante nas axilas antes de enfrentar o touro cruel em “Sangue e Areia” é tirar o encanto da epopéia. Macho é macho, uai. Ou era.

Mas o jovem leitor não ficou sem respostas. E lhe contei que homem se cuidava, sim. E com água de rosas, quem se lembra? Não havia desodorantes como os de agora, isso, ainda, na década de 1950. Mas as farmácias – algumas das quais eram, ainda, “pharmácias”, com seus “pharmaceuticos”, as boticas – tinham umas fórmulas para amenizar bodum de homem que, admitamos, não é flor que se cheire.

Eram os tempos da brilhantina Glostora, que ensebava os cabelos. E macho da época tinha constrangimento com perfumes. Tanto assim era que, ao surgirem os desodorantes, os machões enchiam o peito, mostravam o muque, sentenciavam: “isso é coisa de viado”. Tal era o preconceito que usar perfumes era tido como prática então feminina. Mas e a água de rosas, que se passava nas axilas, nas partes íntimas – que raio mesmo era aquilo?

O João Sachs e seus companheiros de farmácia são, ainda, alguns dos poucos e raros guardiões dos espantosos segredos dos alquimistas. No passado, alquimia era tida como coisa de bruxo e feiticeiro. Agora, a indústria farmacêutica aposentou essa gente sábia. Pois bem. Com os meus amigos bruxos na Farmácia do João Sachs, a Droga Quinze, tentei recuperar a fórmula de amenizar bodum de homem. Qual a milagrosa feitiçaria, qual a poção mágica? Segundo os meus amigos da botica, era elementar, meu caro Watson: bastava misturar alúmen de potássio, cloreto de mercúrio e água de rosas. Embebia-se algodão e passava-se nas partes interessadas três vezes ao dia. Mas que se tirassem anéis e brincos. Pois a bruxaria contra bodum era tão poderosa que destruía os mais resistentes metais. Salvava-se o cheiro, perdiam-se os anéis… Foi o que transmiti ao jovem leitor.

Cheiro de macho, pois, era cheiro de macho. Mas, como ninguém era de ferro, lá estava a água de rosas para amenizar o cheirum, o cabrum, o bafum do macho daquelas priscas eras. Era, porém, preciso dar graças aos céus pois, fosse nos tempos da escravidão, nossas namoradas iriam ficar ainda mais desgraçadas. Os escravos – conforme um livro notável do Edison Carneiro – tinham lá, também, as suas magias contra bodum e morrinha masculinos. A fórmula era simples: catava-se um monte de esterco de boi, misturava-se com folhas de hortelã ou manjericão, cozinhava-se e, depois de tudo pronto, passava-se um pouco da pasta nos sovacos.

Cheiro de macho é isso aí. O problema maior são as mentiras femininas. De minha parte, tento vingar-me, ainda hoje, de antigas namoradas, mentirosas descaradas. Eu era fumante. E elas me diziam, suspirando: “Seu cheiro é delicioso.” Mentirosas. Fumante cheira mal. E bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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