Cheiro no ar

Ora, por quê e quando as coisas explodem? Elementar, caro Watson: quando já não se acredita em mais nada. Não é o escriba tolo quem o diz, mas a história que o conta. Sedições e rebeliões, pancadarias, quebra-quebras, o povo enlouquecido nas ruas – o caos se desencadeia quando não há mais em quê ou em quem esperar. São violências desorganizadas, que não levam a nada e nem derrubam instituições – mas que deixam rastros e mostram sinais graves.

A ONU tem feito essa advertência já há alguns anos, mas as lideranças mundiais, nos chamados países ricos, fingem não perceber: a fome é mundial. E provocará guerras e banhos de sangue. Segundo a ONU, o mundo precisaria de um bilhão de dólares para contornar a fome mundial, universal. Faz-se silêncio sobre isso, mas Mr.Bush faz com que os Estados Unidos gastem – revelação feita pelo New York Times – 5.000 dólares por minuto com a guerra no Iraque. Em apenas um minuto, são 300.000 mil dólares com a morte. É, pois, elementar, Mr.Watson: apenas o governo dos Estados Unidos teria condições de, em poucos dias, resolver a fome do mundo.

A humanidade, como um todo, começa a enlouquecer. À falta de esperança, não há mais o que se perder. A grande maioria de nossos políticos não sabe disso, por ignorante, ou finge não saber, por oportunista. Quando a juventude, nos anos 1960, explodiu em todo o mundo, sem um comando que a unisse, rebeliões sem causa definida, os “rebeldes sem causa” – estava dado o grande sinal e muito pouca gente o percebeu. A grande rebelião de maio de 1968 comemora 40 anos. Jovens podem nada ou pouco saber. Mas, como os poetas, sentem e percebem antes. Quando se tornaram “hippies”, quando bloquearam universidades, quando saíram em passeata, quando enfrentaram tanques, não tinham propostas ou soluções. Mas revelavam temores e desesperanças diante do mundo que se anunciava, terrivelmente materialista, mundo neoliberal, dominado pela economia globalizante. Os moços sentiram, desesperançaram-se. Foram derrotados. E a humanidade está aí, derrotada.

Colunas sociais e revistas especializadas em futilidades são espelhos reais, verdadeiros de uma sociedade. Quando se consagra a futilidade, quando se paga para “aparecer” em vitrinas fúteis, quando se sente orgulho de estar em meio ao frívolo, o sinal é grave. Estudiosos de todos os tempos, lendo e estudando as colunas sociais de cada época, compreenderam a as causas e os efeitos da decadência cíclica da humanidade. Há uma crônica social da velha Roma, anunciadora. As célebres colunas de João do Rio revelaram tudo, de bom e de pérfido, do universo carioca da belle époque. A revista Caras e suas congêneres revelam a glorificação do fútil, do supérfluo desnecessário, da opulência provocativa. A lição de Maria Antonieta não foi aprendida.

Haverá quem pense seja tolice minha, a insistência em relação ao sagrado das coisas. Não é. Sem o sagrado delas, não há para onde ir e nem o que esperar. Quando coisas, pessoas, instituições perdem a dignidade e a sua sacralidade – e a palavra é essa, não adianta criar eufemismos – os avisos são mais claros do que parecem: a explosão está próxima. Anúncios surgem no mundo todo. E virá dos jovens, que não mais suportam ver o próprio futuro comprometido pela cupidez e rapinagem dos adultos. Não há que se consultar bolas de cristal. Basta, apenas, ver o que aconteceu, vezes sem conto, na história humana. O modelo econômico da civilização ocidental agoniza. Será trágico se se extinguir em banho de sangue.

O Brasil, por sua nova realidade econômica – que começa a deslumbrar o mundo – pensa estar acima das coisas. Os eufóricos com o etanol, em Piracicaba, não querem olhar nada além do próprio umbigo. Mas há cheiro no ar. Não à toa, a crise dos Estados Unidos assusta o mundo. Bom dia.

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