Cheque de civilizações

CivilizaçõesFoi o cientista político conservador estadunidente Samuel Huntington que popularizou o conceito “choque de civilizações”, a partir da qual tantos conflitos, guerras e tragédias se procura explicar. O que, no entanto, não se popularizou – permitindo que o grande público permaneça confuso e mal orientado – é a verdadeira realidade do mundo oriental, tão desconhecida do que se chamou “cristandade” (Ocidente), em já catorze séculos de conflitos e de confrontos.

Um dos preceitos mais proclamados por governos e governantes é do “diálogo e tolerância para com o islã, repressão frente ao islamismo”. Pois o fundamentalismo islâmico, fanático e motivo por uma fé inabalável, não cria condições para entendimentos e conversações. A questão é muito mais de fé do que de política e o islamismo propõe governos baseados na fé, a teocracia que conflita, na essência, com todo e qualquer princípio democrático baseado em divisão de poderes. No islamismo, o homem não pode legislar, pois apenas Deus legisla.

No entanto, estamos – desde a tragédia das Torres Gêmeas – vivendo políticas internacionais em que, em relação ao islã e ao mundo muçulmano, fala-se muito mais em força, em repressão e em imposição do que em busca de um conhecimento mútuo. Pois o maior de todos os problemas parece residir exatamente no desconhecimento um do outro, do Ocidente e do Oriente. São séculos demais de distanciamentos, de arrogância ocidental, de desprezo às raízes orientais, no esquecimento até mesmo de que civilizações árabes foram verdadeiras matrizes do conhecimento ocidental. Depois da tragédia das Torres Gêmeas e com Bush, jogamos tudo para o mesmo saco de gatos, como se bastasse ser muçulmano para ser inimigo, como ocorre novamente na Europa e como se acentua nos Estados Unidos.

A posição do Brasil – insistindo no diálogo, na tolerância, na recusa ao uso de força e da coação – é sábia, sendo adotada também por países que, menos fanatizados ou cegos por outros interesses, sabem da absoluta impossibilidade de colonizar cultural e politicamente o mundo muçulmano. Com preconceitos congelados, não haverá jamais qualquer possibilidade de entendimento, pois se esbarra na ignorância de se confundir islã com islamismo, visão muçulmana com fanatismo islamista. Qualquer intromissão cultural e política não-muçulmano que proponha a conversão do modus vivendi muçulmano está fadado ao fracasso e teremos, para sempre, novos Iraques, novos Afeganistãos, novos Orientes Médios.

Quando, pois, o Brasil propõe a tolerância e estimula o diálogo – confrontando a beligerância histérica de setores da direita fundamentalista também dos Estados Unidos – estamos compartilhando da visão mundial inteligente que ainda acredita na diplomacia como instrumento essencial para evitar a guerra. O Oriente é um mundo de mistérios que vão muito além das histórias de Sheerazade nas Mil e Uma Noites. E parece ser impossível qualquer entendimento – no que já se configura mesmo como um choque de civilizações – se não existir um diálogo inter-fés. Sem a análise e crítica mútuas, o Ocidente não conhecerá o Oriente e o Oriente continuará considerando-se vitimado pelo mundo cristão, como conta a sua história. Bom dia.

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