“Cherchez la femme”

de-lempicka-tamara-autoportrait-7000949A sabedoria do escritor Alexandre Dumas, pai, transformou uma de suas frases em verdadeira lição para se desvendar alguns dos mistérios, segredos, engodos, farisaísmos do mundo. Em todos os tempos, em todas as atividades. Também, obviamente, na política. Ou especialmente nela.

Dumas, pai, num de seus livros, faz com que o personagem oriente como se faz para desvendar qualquer caso intrincado: “Procure uma mulher” – diz ele. É o agora universal “cherchez la femme”, que se tornou quase peça-chave em romances policiais. Isso, em absoluto, deve depor contra a mulher. Ao contrário, deve mostrar a tolice do homem que não resiste aos encantos femininos e que, por eles, acaba ultrapassando todos os limites. Deve ter começado com Adão e Eva. E Sansão e Dalila? E Marco Antônio e Cleópatra? E Herodes e Salomé?

O falecido Ulisses Guimarães costumava dizer que “política é o melhor afrodisíaco”. E, de certa forma, ele parecia referir-se a bacanais em Brasília, grandes noitadas, políticos enlouquecidos por mulheres, uísque e luxuosos quartos de hotel. Filhos adulterinos de políticos surgem, quase sempre, dessa atração irresistível que a mulher exerce sobre a fragilidade emocional masculina. As estrepolias e gaiatices são tantas que se tornou quase norma a lei da “omertá”, do silêncio. Político inteligente não atira pedra no telhado do outro quanto à corrupção e à clandestinidade amorosa.  Por isso, é tão comum – para a infelicidade da nação – ver quantos cargos de confiança, com dinheiro público, são ativados e criados para favorecer amores clandestinos. O povo é que paga. Em todo o Brasil. Logo, também nos municípios. Ou seja: até a libido de muitos deles é satisfeita pela idiotice da população.

Alexandre Dumas, pai, advertia “haver uma mulher em cada caso”, significando que, localizando-a, se encontrava, também, a raiz do problema. É o que tem acontecido e nenhum dos tantos casos conhecidos foi mais característico do que o de Renan Calheiros. Já ocorrera com Getúlio Vargas, com Juscelino, com Jânio e Adhemar de Barros, Fernando Henrique, Lula, Collor, tantos outros.  Mas seria e será injusto considerar apenas eles. A política –  lembrando Ulisses Guimarães –  “é o melhor afrodisíaco”. Logo, por raciocínio torto, poder-se-ia  dizer que políticos  – em todo o país, incluindo municípios – não são culpados. A culpa é da política, quem diria?

A questão de político ter vida pública e vida privada continua em discussão. Se ele quer privacidade por que torna pública, evidente, escancarada, sua vida privada?  Essa é uma das raízes do problema. Porque, na verdade, a questão vai mais além: se um político quer manter uma ou diversas amantes, ele que o faça por conta e risco. O insuportável é que um político mantenha a sua amada com o dinheiro público, dinheiro do povo, quer em espécie, quer oferecendo-lhe cargo de confiança no serviço público. A encrenca é óbvia. E, nesse caso, basta repetir os franceses e – ulalá! – “cherchez la femme”.

O problema se agrava – e transforma muita gente em cúmplice – quando a “femme” é conhecida e é recompensada com cargos por seus amoráveis serviços. Bom dia.

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