Cidade civilizada é limpa e desruidosa

picture (83)Verdade ser melhor as coisas acontecerem tardiamente do que nunca acontecerem. A Prefeitura, na segunda administração do atual prefeito, decidiu, enfim, agir contra a sujeira que infesta a cidade através de panfletagens ilegais e de outdoors e placas abusivas. Ora, a maior poluidora visual de Piracicaba foi a própria Prefeitura durante toda a anterior administração do mesmo prefeito e isso não nos cansamos de advertir e contra isso protestar, ao longo daqueles anos que prepararam a reeleição.

Foi, na verdade, um escândalo somado a acintes e a um silêncio cúmplice da Câmara de Vereadores. A Prefeitura inundou a cidade de placas informando a realização de obras e, logo depois, informando estarem, elas, concluídas. Ora, se estavam concluídas para que informar, se visíveis? E por que manter por tantos anos sabe-se lá o número de placas dizendo: “Obra concluída”. Foi uma violência contra a civilidade desta terra que tem uma tradição honrosa de urbanidade e de civismo. Nunca se viram tantas placas subliminarmente publicitárias, numa poluição visual grosseira, agressiva e d esrespeitosa.

questão da panfletagem não era menor e ela vinha desde a anterior administração do PSDB, com Thame, passando pela do PT, com José Machado. Trata-se de uma indústria da panfletagem, incluindo empresas de outras cidades que para cá traziam não apenas distribuidores de panfletos, como, também, ambulantes, despejados em kombis e camionetes. A alegação de tratar-se de possibilidade de emprego, ainda que precário e ilegal, não se justificava, como também nunca se justificou o comércio ambulante sem autorização legal, muitas vezes com produtos contrabandeados.

Cansamos de chamar a atenção dos poderes públicos para o acinte e a afronta, além do perigo claro a motoristas nas esquinas, tanto pela poluição visual quanto pela abordagem agressiva da panfletagem. Autoridades fizeram ouvidos moucos, mesmo porque quase tudo se fez em busca de reeleição, que aconteceu. Mais uma vez, a mediocridade política imperou sobre a dignidade do povo.

Agora, no entanto, o governo municipal decide tomar posição, voltando-se para o que já se chama de campanha da “Cidade Limpa”, como ocorreu em São Paulo, deflagrada com êxito pelo aliado dos tucanos, Gilberto Kassab. Embora tardia, a decisão merece apoio. Mas, em nosso entender, deve ser radical em todos os sentidos, limpando-se a cidade de propagandas religiosas, comerciais, oficiais, em outdoors, em muros, em postes onde até seitas colocam suas mensagens que ameaçam com o inferno e prometem o céu.

Uma cidade civilizada é limpa em todos os sentidos, incluindo o combate à poluição sonora. E este é outro grande problema, talvez ainda mais grave, pois a agressão da orquestração de ruídos – em veículos comerciais, em estabelecimentos do comércio, em bailes, em automóveis de passeio e em chácaras sem alvarás – tem a propriedade maléfica de alimentar violências e de exacerbar ânimos. Cidade civilizada é limpa e também desruidosa, ou seja, sem ruídos inúteis ou programados.

Cidades há, no Brasil, que começaram um processo de reeducação popular e de revitalização de civilidade exatamente pela música. Em ruas e em estabelecimentos comerciais, em praças, prefeituras e a iniciativa privada instalaram transmissores de música melódica, serena, tranqüilizadora. E o resultado é a transformação de lugares públicos como que em oásis nesses infernos urbanos em que permitimos as cidades se transformassem.

Piracicaba, ainda no início do século XX, era tida como modelo de cidade limpa, urbanizada, serena e civilizada. Quando a crise da II Guerra começou a destruir valores, um prefeito, Jorge Pacheco e Chaves, decidiu e deu a ordem de comando: “civilizar Piracicaba”, impedindo a barbaria e a barbárie que chegavam. Ora, estamos vivendo tempos bárbaros que – ajudem-nos os céus – começam a ser revistos a partir dos Estados Unidos, com a união do povo em torno de Obama e de velhos e esquecidos ideais e estilos de vida.

Piracicaba tem tudo para dar exemplo, para ainda ser pioneira, para ainda ser paradigma desse senso civilizatório, com nossas universidades, escolas, bandas, orquestras, artistas. Que se limpe a cidade de panfletos e de outdoors monstruosos, criando-se leis honestas e justas. Mas que se tenham cuidados especialíssimos quanto à poluição sonora, primeiro grande passo para enlouquecer ainda mais o já enlouquecido cotidiano da população.

A Câmara de Vereadores tem papel fundamental nisso. E, pelo bem do povo, precisa exercê-lo. Bom dia.

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