Cidade sem almas e a televisão

Certa vez, uma jovem pesquisadora tentou me perguntar – para um trabalho de mestrado que fazia sobre alguns aspectos de Piracicaba – minha definição sobre a cidade.

A única coisa que pude dizer-lhe naquela época é que Piracicaba estava sem alma, como se a tivesse perdido. Isso, não entanto, não explicava e nem definia nada.

Desde então fui me convencendo de que a alma perdida tem sido a nossa, das pessoas. E não o falo no sentido religioso, muito menos escatológico. Digo do sentido de viver, de estar vivo, do que se procura, se busca, do que se pretende e se quer.

Acho que a televisão tem muito a ver com isso, mas não sei avaliar quanto. E nem sequer estou me referindo à qualidade dos programas, se há muita violência e brutalidade ou outras coisas de que a televisão é acusada.

Acho que a televisão tem a ver porque se tornou muito mais do que um veículo de lazer, de entretenimento e de informação. Tornou-se parte essencial da vida das pessoas, momento imprescindível de seu cotidiano. É um deus-todo-poderoso que abarcou tudo, que hipnotizou e seduziu e, assim, tornou-se senhor de todas as vontades. O que as religiões e as ideologias não conseguiram, a televisão está conseguindo: conquistou a alma das pessoas. E, se as pessoas perderam a alma, as cidades, também. Pois cidades são pessoas.

Não sou contra a televisão, pois tolo não sou. Estou falando dessa sedução hipnótica, dessa derrota das pessoas diante da televisão, um vício como outro qualquer – o novo ópio do povo, quem diria? Fala-se o que ela fala, pensa-se conforme ela quer que pense.

Uma vez aconteceu-me algo significativo, dentro do próprio jornalismo. Um jovem, escrevendo uma matéria, disse que Piracicaba tinha “o seu Russomano”. Não consegui entender, pois, para mim, Russomano foi um grande cultor e professor de Direito, com uma obra monumental. A quem, porém, o repórter queria referir-se era a um tal de Russomano da televisão. Eu não entendi, da mesma forma como não entendi mais muitas conversas de salão, encontros sociais, e de mesa de bar.

O assunto é, sempre, o de uma novela ou de um programa de televisão. Ora, se isso não é ter a alma aprisionada, então não sei mais o que seja prisão.

Portanto, não era Piracicaba que mudara, que estava indefinida. Mas o país, talvez o mundo todo.

Lembram-se daquela frase: “Parem o mundo que eu quero descer”? Acho que é disso que precisamos: parar um pouco o mundo, para descermos dessa roda viva, deixar passar a atordoação e, então, voltarmos a pensar.

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