Cidades inviáveis

Cidades InviáveisChegamos onde, talvez, quase ninguém esperava: as cidades não são mais lugares de se viver, mas de conflitos, confrontos, desafios, inquietações, tensões e medos. As pessoas têm medo umas das outras, medo da violência, do trânsito, da poluição do ar, do barulho infernal, da confusão, do inesperado de agressões.

Há poucos dias, escrevi de um amigo que, morando em lugarejo próximo, dizia de suas noites tranquilas, vizinhos colocando cadeiras nas calçadas, conversando entre si. Desgraçadamente, isso nunca mais se repetirá, a não ser em espaços isolados e cada vez mais raros. Mesmo a noção de vizinhança começa a desaparecer quando, na verdade, o vizinho foi, historicamente, a segurança do outro, a certeza de trocas de auxílio e de socorro. Hoje, nem em prédios de apartamentos, vizinhos se conhecem, havendo casos inacreditáveis de pessoas que moram lado a lado e se ignoram.

Se a cidade não é mais um lugar de viver, servirá para quê? Talvez, como um centro de trabalho, de produção, de operações de serviços, algo com que as pessoas se relacionam superficial e descompromissadamente. Antes, as ruas eram dos meninos, com seus folguedos, correrias, brincadeiras. Agora, são dos assaltantes, de traficantes, de viciados, de exploradores da prostituição, pontos patéticos de travestis ainda mais patéticos. E a praça, que Castro Alves cantou ser do povo como o céu é do condor, ficou vazia à noite, quando não ocupada por malandros e malfeitores.

Os condomínios remetem-nos aos burgos da Idade Média, agrupamentos fechados e cercados por fossos. Mas não apenas a burguesia buscou isolar-se pois, agora, as classes trabalhadoras, operárias, também já se refugiam em condomínios em busca de segurança, mas descobrindo a ilusão de um aprisionamento compulsório, de falta de pulsação de vida, como se vivendo em clubes fechados. A cidade se tornou inviável e, agora, para onde ir?

Sou de pouco, pouquíssimo sair. Mas, nas raras vezes em que me atrevo a fazê-lo, fico entre perplexo e atordoado. Piracicaba caminha, aceleradamente, para também não mais ser um lugar de viver. O ser humano está esquecido, tendo dado lugar ao automóvel, às motocicletas, aos caminhões, ônibus. As cidades estão sendo reformuladas, retocadas, reformadas em função do automóvel. E as pessoas começam a descobrir que, na área urbana, já não se sabe mais o que fazer deles, com eles. Não é apenas o caos do trânsito, a lentidão, mas vagas para estacionamento, as quadrilhas que se formam para achacar motoristas sob o pretexto de proteger o veículo em alguma vaga.

A impressão que tenho – ou é simples sensação – é a de que autoridades municipais, no âmbito dos três poderes, não conhecem a própria cidade onde vivem. Talvez, algumas façam visitas rápidas para vistorias de obras, para coleta de votos, para aliciamento de eleitores, conduzidas em carros e por motoristas oficiais. Mesmo quando se fala em plano urbanístico, fala-se tendo o automóvel como referência. E, talvez, a melhor comprovação disso esteja nos praticamente inexistentes projetos e planos de priorização do transporte público. Mesmo assim, mesmo que houvesse excelência nesse transporte, ainda sobraria a pergunta sem resposta: ir de onde para onde? E para quê?

Quando Thomas Morus criou a sua Utopia – o sonho do Estado ideal que, com sua formação cristã, era comunitário, muito próximo de regimes comunistas – sabia-se que o nome escolhido era perfeito: a Ilha da Utopia, o “não-lugar, o que não existe.” Para ele, o sonho era criar uma cidade de Deus no lugar da cidade dos homens e, por isso mesmo, fraterna e solitária. Pudesse, Morus, ver a insanidade de hoje, veria que, se não se conseguiu criar uma Utopia, surgiu o seu contraponto, a Eutopia, o lugar que existe, o lugar que é. Estamos nele, nas cidades. E foi como se trouxéssemos o inferno à terra. Bom dia.

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