Civilidade perdida

picture (53)Como se entrando num funil, as antigas minhas muitas certezas tornaram-se poucas, quase nenhumas. Assim, cada pequena delas vale por um tesouro. E uma, preciosa, é a convicção de que todos os esforços serão inúteis – de educação, de reeducação, de escolas melhores, de cidade desenvolvida – se o primeiro passo não for o da civilidade. Já me cansei de insistir nisso.

Não é difícil ou complicado aquilo em que acredito. É a civilidade à antiga, no sentido de boas maneiras, cortesia, polidez, a “boa educação” nas relações humanas. Vizinhos cumprimentavam-se, dava-se passagem a idosos e mulheres, existiam palavras e expressões preciosas: obrigado, por favor, com licença. E ainda mais importante: recintos públicos eram respeitados, não essa terra de ninguém de hoje.

Ora, viajei muito menos do que desejei. Mais, porém, do que pude e do que mereci. Por algum tempo, deu-me prazer tornar-me, também, um narrador de histórias de viagens, de passeios, descrevendo lugares e paisagens, comentando hábitos e culturas. Aos poucos, calei-me. Foi como se – quanto lugares mais civilizados eu conhecesse – mais me constrangesse de um subdesenvolvimento que passou a doer-me na carne. Pois, na verdade, não é a alma que dói, nem mesmo nos sofrimentos atrozes. É a carne.

Diante de meus silêncios após algumas viagens, leitores antigos cobravam-me impressões deste ou daquele lugar, de culturas. Evitei confessar fosse, o meu silêncio, como que uma confissão de vergonha, de constrangimento, de desânimo. Lembro-me de – e lá se vão mais de 20 anos – da velhinha na 5ª Avenida, em Nova York. Ao atravessar a rua, ela chamou-me a atenção: ela estendia um jornal no chão para o cãozinho defecar. O cãozinho terminou, abanou o rabo, ela embrulhou os dejetos no jornal, deixou-o no cesto do lixo na esquina. E aqui, hein? E nossos másculos rapazes, nossas belas raparigas, nossas madamas e nossos senhores respeitáveis, andando com seus cães pelas ruas e deixando rastros? Sem civilidade, o bem público é terra de ninguém.

Certa vez, filha minha me contou da impressão que tivera ao conhecer, na Carolina do Norte, o lugar onde passaria a morar: “lugar de família viver, uma capital mas com jeito interiorano. Tudo aqui é tão limpo que ninguém parece jogar nem cinza de cigarro no chão, na calçada.” Ora, aquele “jeito interiorano”, de que cidade brasileira falava minha filha? Onde fica essa cidade de pessoas que sem sequer cinzas de cigarros deixam cair no chão? Piracicaba não é, lugar onde a Prefeitura é a primeira a desrespeitar a população, com uma poluição visual sistemática. Quando o desrespeito vem de cima, pouco há a se esperar.

Não creio, pois, em projetos ou programas de educação se, como ponto de partida, não atentarem para a civilidade perdida. Baterei nessa tecla até o último suspiro. A violência não brota sozinha. Além, é óbvio, de todas as grandes causas, há as pequeninas que, no entanto, me parecem tão importantes quanto as maiores. Os gestos pequeninos, as delicadezas mais simples, as atenções, a cortesia – essa cultura da polidez deveria ser cultivada até mesmo por esperteza, num tempo no qual tantos e tantos se julgam espertos. Ou um grito vale mais do que um sorriso?

Meus sonhos não chegam a desenhar uma Piracicaba tão civilizada a ponto de o povo não jogar cinzas de cigarros no chão. Bastar-me-ia um lugar onde pessoas não atirassem lixo nas ruas. Quando passo por aquele mercado de pulgas – na rua 15, perto da Rodoviária – sinto vergonha. Bom dia.

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