Civismo em julgamento

Homens e mulheres de minha geração, acho que deveríamos fazer um honesto “nostra culpa”. Fôssemos mais humildes, admitiríamos que muitos de nossos problemas atuais resultam de erros e de equívocos nossos, os que temos mais de 60 anos. Acostumamo-nos a lançar responsabilidades, covardias e alienações sobre os ombros de ditaduras e ditadores militares, acabamos deixando de assumir a nossa parcela de culpa. Que foi grande.

Decepções e frustrações pessoais não mais servem de justificativas. E muito menos interessa ou importa – como vêm fazendo alguns, até mesmo como profissão – inventar histórias de heroísmos, de perseguições e de violências. A história brasileira desses últimos 40 anos já está sendo reescrita. E é hora, penso eu, de, personagens dela, sentarmo-nos no banco dos réus. E ouvir as testemunhas de acusação – nossos filhos, nossos netos.

Quando eclodiu o golpe de 1964, éramos adultos, sabíamos o que estava ocorrendo. E porque ocorria. O sopro primaveril – nas décadas de 1950 e 1960 – tornara-se temporal caótico, erupção vulcânica. Os sexagenários de agora fomos os que rompemos tabus, preconceitos, proibições, desafiando hierarquias e valores e até mesmo princípios. Foi nosso o lema tolo “é proibido proibir”. E foram nossos os falsos “psicologismos”, abalando estruturas, abrindo fendas, criando destroços. Sem, no entanto, nada colocar no lugar do que fora destruído. Mesmo porque nem sequer sabíamos em busca de quê íamos, a não ser de uma indefinida ânsia de liberdade, tão indefinida que se tornou tolo libertarismo.

Tudo foi bonito demais, é verdade. Aragens novas, sopros de esperanças, sinais de fraternidade, sociedades generosas – tudo se anunciou através da música, da filosofia, da religião, das artes. Mas perdemos o senso dos limites, essa a verdade que não temos contado. Para romper hierarquias rígidas, instalamos anarquias. Em nome de propostas liberticidas, tornamo-nos iconoclastas não de falsos ídolos, mas iconoclastas de valores que eram sagrados e que banalizamos. Alguns deles? Pois não: Deus, Pátria e Família, que desmoralizamos e pisoteamos, alegando serem símbolos e significados nazistas, fascistas, integralistas. Estupidamente, propusemos um mundo, o da Esquerda, sem Deus, sem Pátria, sem Família. E agora?

No último aniversário de Piracicaba, a presença de público na praça da Catedral beirou o ridículo. E o próximo “7 de Setembro”, conseguirá redimir tantos outros anteriores, tristes e envergonhado? Por que temos silenciado os tambores, dando as costas a desfiles, festejos, crianças e jovens, marchando pelas ruas ? O povo, onde ficou? E a Pátria?

Amargura-me, confesso-o, ver franceses e estadunidenses confraternizando-se em consagrações cívicas no “Dia da Pátria” deles, o “14 de Julho” da Revolução Francesa, o “4 de Julho” da Independência dos Estados Unidos. O Brasil tinha jogado fora todo o significado do “7 de Setembro”, sob o pretexto de não perfilar com ditadores. Mas a ditadura acabou. Haverá de retornar o civismo anterior?

Perguntou-me, um amigo, se me lembro de nossa adolescência, os desfiles da Independência, o Hino Nacional, o garboso uniforme branco-e-azul do colégio . Ora, e com que saudade! Não, talvez, apenas daquele tempo, mas saudade de um fervor cívico que minha geração tentou matar, colocando a culpa nos militares. Hoje, a culpa que deveríamos sentir é a de ver que, muitas vezes, roubamos a filhos e netos a experiência vívida de desfilar pelas ruas da cidade, o coração pulsando forte, a alma em júbilo – por amor à Pátria. Apenas um recomeço poderá diminuir-nos remorsos e penas. Bom dia.

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