Coluna Bom Dia: 50 anos!

1964

Não acredito tenham-se passado 50 anos. É-me quase impossível crer nisso. Pois,  para mim, são 50 anos que passaram pelo tempo. Uma viagem. A grande aventura de viver no espaço sem se dar conta do tempo. (…)  Viver é essa aventura. Ao pensar nesses 50 anos de escritas e escrevinhações, descubro que, por escrever, sobrevivi aos espaços, mergulhando, sem dar-me conta, no tempo.

Vejo-me, ainda agora, na minha pequenina saleta da “Folha de Piracicaba”, da qual, já aos 20 anos de idade, me tornara redator e, em seguida, aos 21, diretor, vindo a tornar-me proprietário dela. Era um jornal pequenino, pobrezinho. Mas valente e atrevido, abrigando jovens que – tendo acalentado sonhos e esperanças – não se conformavam com o esboroar delas, abaladas por coturnos, fuzis e fardas. O golpe militar de 1º. de abril de 1964 – (…)  – golpeara, também, os ideais de uma juventude ainda vibrante e contagiada pelos “anos dourados”.

Em 1964, estava, eu, recém-casado com Mariana, a futura mãe de meus filhos. Tínhamos todos os sonhos da juventude, projetos de vida, a força vital para uma caminhada apaixonante. (…)

Foi como – e não consigo encontrar outra comparação – se tivessem roubado um doce da boca de crianças. Um mundo ruíra. E o meu mundo pessoal, também. Cadê a alegria dos “anos dourados”, o balanceado da bossa nova, o orgulho da construção de Brasília, as expectativas de um Brasil jovial, confiante, movido pela esperança e pelo despertar da consciência de nacionalidade? (…)

O golpe militar atingiu-me no fígado da alma. Eu tinha apenas 23 anos. Era recém-casado, dirigia um jornal, estava para concluir uma faculdade e ingressar em outra, já escrevera o meu primeiro romance, ainda que, então, não publicado. Como e o quê fazer? Para onde ir? Recomeçar ou resistir? Render-me ou enfrentar? Um redemoinho de contradições e perplexidades me atordoou. E amargores e amarguras começaram a abrir-me brechas na alma. O espírito cambaleava. (…) A fragilidade era total.

Em julho de 1964, Mariana deu-me a sufocante notícia: engravidara. E foi-me sufocante saber,  pois, ao mesmo tempo, exultei de alegria e temi pelo destino da criança. Para qual mundo ela viria, para qual país? Para qual família? Que pai seria eu,  se tinha ideais apaixonantes, que haveriam, de mim, exigir lutas, enfrentamentos, prisões, clandestinidades? Como poderia, eu, conciliar a imensa alegria de ser pai com a profunda impotência de minha filha nascer sem liberdade? E como sustentá-la, mantê-la, educá-la se – por boicotes de ditadores e de empresários a eles submissos – as dificuldades financeiras se agravavam a cada dia?

Esse, o meu martírio pessoal. Mas lutar era preciso. E reagir. E buscar alívio ou refúgios para a alma. Sem ser cristão (…) eu não sabia que a inspiração do homem provém da expiração de Deus. Participar desse mistério – mesmo não o compreendendo – é uma bênção. E, naquele 20 de julho de 1964, a graça e a inspiração  invadiram-me, ainda que eu não o soubesse. Deus expirava sobre mim. Bastava-me, apenas, entender e inspirar a expiração dele.

Era uma gélida noite de inverno. Os companheiros de redação tinham-se ido para suas casas. Mas eu não conseguia mover-me, como se paralisado pelo gelo na alma, pelo sombrio do coração. Vi-me no inferno, mas incapaz de pedir ajuda a um Deus em que eu, então,  não acreditava. Percebi o desespero fragilizar-me, ideias alucinadas minando-me a paixão pela vida. Permitir-me submergir ou emergir?

Então, algo ardente, fogo em brasa, aqueceu-me o coração. Reagir era preciso.(…) Deveria,  eu, preservar o meu núcleo fundamental, o da alma. Portanto, aquela realidade brutal não poderia alquebrar ou destruir os meus sonhos de mundo, de vida, de família, de comunidade(…)

Hoje, sei que houve, sobre mim, a expiração de Deus. E eu a inspirei.  E, naquele momento de amargura e amargores, sentei-me à maquina de datilografia e escrevi, não mais com a razão, mas com o coração. Eu não poderia permitir que a lama invadisse o mundo que eu imaginara para mim, meus filhos, o sonho de um mundo harmonioso. Não importava mais fosse utopia, loucura, fantasia. Como se fosse um castigo – ou missão? – eu precisava alimentar minha esperança e levá-la ao mundo. Mais do que contar, cantar. Então, diante da folha de papel em branco, escrevi o título que haveria de ser o meu refúgio, meu farol, meu confessionário, meu muro de lamentações, meu espaço intimista de esperança e de consolação. O título da coluna era um convite  à alegria de viver, apesar de dissabores e tristezas: “Bom dia, leitor”.

Na manhã do dia 21 de julho de 1964, a “Folha de Piracicaba” dedicou – com aquela coluninha intimista – ao povo e aos leitores, o desejo de uma boa nova, de um sinal de esperança, de um convite ao humanismo generoso e solidário. Passei, então, a cada dia e todos os dias, a refugiar-me naquele cantinho pessoal, a acreditar numa identidade entre cronista e leitor. Na verdade, porém, eu precisava salvar-me, conversar comigo mesmo, ver-me no espelho da alma, desabafar, cantar a humanidade de todos nós sem medo, sem restrições, sem escravidões.

Foi assim. Não percebi e ainda não acredito tenham acontecido 50 anos. (…) Permitir escapassem-me os sentimentos de cada dia – tristezas e alegrias, esperanças e decepções, ânimos e desânimos, entusiasmos e cansaços – isso, preciso confessá-lo, salvou-me a vida. Escrever diariamente – sem restrições, sem censuras ou autocensuras – manteve-me a saúde psicológica e espiritual. As enfermidades do corpo foram e têm sido superadas apenas graças a isso: escrever. E a coluna “Bom dia” foi e tem sido minha tábua de salvação.

Elaine, minha mulher, tomou a iniciativa, sem consultar-me, de publicar, em livro, algumas das milhares de crônicas que escrevi, meus desnudamentos de alma. Por mim, tudo estaria encerrado no mausoléu do tempo. Mas – sem vaidade, com sobressaltos na alma – preciso reconhecer e admitir: 50 anos de reflexões, de cóleras e de doçuras, de crenças e de descrenças assustam.

Elaine selecionou o que lhe pareceu mais significativo. E escolheu um período, um tempo: os do autoexílio e da prisão. Psicanalista e filósofa, sinto que ela o fez para exorcizar-me fantasmas que – agora, descobri – ainda me acompanham. Fazem parte de minha vida, mas são fantasmas.

Com este livro, espero que desapareçam. Pelo menos, alguns deles. E bom dia.

(Trechos de apresentação  do livro “BOM DIA – CRÔNICAS DO AUTOEXÍLIO E DA PRISÃO”, a ser lançado dia 30 de julho de 2007, em caráter beneficente, na sede da PASCA (Pastoral de Serviço à Caridade).

2 comentários

  1. wilhe gerdes em 21/07/2014 às 12:08

    Respirar mesmo que contemporaneamente ares de medos, incertezas deste tempo, é resgatar valores e reflexões de um povo ainda letárgico e longe de entender seus direitos e obrigações dentro da sociedade e da família.
    Por isso, vai aqui o nosso respeito e admiração pela sua garra, sua luta e escolha pela “inspiração” em pleno ano de 64.
    Abraços
    wilhe gerdes

  2. Jayme Rosenthal em 22/07/2014 às 13:10

    Caro
    Caro Cecilio
    Sinto-me honrado em poder cumprimenta-lo, não só pelos 50 anos da Coluna Bom Dia, más sim, por termos a mesma idade tendo vivido em Piracicaba e por Piracicaba, sempre respeitando a boa amizade com uma convivência harmoniosa.
    Lembro-me da nossa infância, onde viviamos na mais plena segurança e as amizades eram sinceras.Lembro-me que aos sábados a noite, ficava na porta de sua casa ouvindo música tão bem tocada por seu Pai e amigos, como uma verdadeira orquestra.
    Cada um seguiu seu destino.Hoje, com 74 anos, vivemos de lembranças que marcaram nossas vidas.Como jornalista e escritor, você marcou sua presença, sendo coerente e justo naquilo que escreveu.Em meus guardados,tenho jornais da época, que provam seu bom censo e imparcialidade.
    Caro Cecílio, nada a reclamar, só agradecer pela sua amizade.
    Que continue a dizer BOM DIA por muitos e muitos anos.
    Jayme Rosenthal

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