Com pão, com circo

picture (67)As “Sátiras” de Juvenal são, na literatura latina, rica fonte de uma época em que se acentuou a decadência romana. Foi ele quem, lamentando-se da deterioração do povo, falou em “panem e circenses”. Que bastavam o pão e o circo para contentar a plebe. Juvenal não pôde prever que sua avaliação serviria, através dos tempos, quase que como regra para administradores ineptos ou impotentes tentarem manter-se no poder. À falta de grandes serviços, de administrações arrojadas e sérias, sempre se deram – ao povo e em momentos de crise – a festa e o naco de pão. Governos demagógicos e populistas esmeram-se em acenar com o atendimento de necessidades básicas e diversões populares.

Ora, votei em Lula e ainda estou ao lado dos que se entusiasmaram quando S.Exa., o Presidente da República, anunciou, em tom emocionado e profético, que não descansaria enquanto o povo não “comesse três vezes por dia”. Num país miserável e faminto, o anúncio do “panem” – por um líder que chegou ao poder como que carregado pelo povo – soou verdadeiro. Um tremor de mobilização nacional pareceu despontar. Mas não passou de um soluço. O “Fome Zero” – que significa, também, analfabetismo zero, humilhação zero – esboroou porque o próprio povo não se mobilizou para uma cruzada solidária. .

Mas o elemento “panem” começou a aparecer. Mas o que, realmente, abundam e esbanjam-se são os “circenses”. As festas juninas em Brasíia são patéticas, como se o governo, em conjunto, se esmerasse em criar situações constrangedoras, em estimular banalidades e, também, vulgaridades. É como se, no Brasil, a majestade do cargo estivesse relegada a palanques e churrasqueiras, muitos bonés, uniformes de futebol, goles de cerveja imensos, charutos fumegantes. O recato deu lugar ao “circences”.

O circo continua e a festa parece ótima. E “nunca, antes, no Brasil”, houve um ministro tão adequado a essa filosofia medíocre como o animador Gilberto Gil. Pois Gil não é ministro de nada, mesmo porque o Ministério da Cultura nunca passou de uma ficção. E, nessa ficção, Gilberto Gil confirma o seu talento para animador de auditório, representante de uma cultura não se sabe mais se “pop”, “funk”, “rave”, que diabos sejam os rebolados e requebros que o antigo tropicalista faz. E sempre de licença, fazendo shows pelo mundo, sem que a oposição e o Congresso tenham coragem de cobrar, do governo, o tal do pudor público. Pois é mentira que Gil consiga, quando artista, deixar de lado o cargo de ministro. Da mesma forma como, na condição de ministro, não deixa de ser artista.

Já começa, sim, a haver pão. Mas o circo é mais amplo. Gilberto Gil encontrou o grande palco de que precisa para expandir ainda mais a sua vocação de empresário de entretenimento. Deveria ser motivo de uma discussão de ordem ética saber se um Ministro da Cultura deveria continuar promovendo shows pessoais e profissionais, ao mesmo tempo que responde por uma função pública. Gilberto Gil, mantendo a sua condição de cantor não estaria, pelo menos indiretamente, sendo beneficiado por suas funções ministeriais? Ou é pouco anunciar-se, em qualquer cidade, a presença do “ministro cantor e dançarino”?

Lula prometeu pão e está permitindo, também, um grande circo. O triste é tratar-se, quase sempre, de circo mambembe. Se um ministro da cultura é serve apenas para dançar e cantar, há, penso eu, artistas melhores do que o Gil nas imensidões deste país. Eu escolheria o Ney Matogrosso. E bom dia.

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