Condomínios e Idade das Trevas

Tornou-se significativa a narrativa a respeito do menino cuja tarefa escolar era a de fazer um resumo biográfico de Beethoven. Ora, para que servem o Google, a Wikipédia? Em cinco minutos, o garoto completou o trabalho: “Beethoven é o cachorro que mais fez sucesso no cinema na década passada. Houve o Beethoven I e o Beethoven II. ”

O formidável, nesse admirável mundo novo, está, penso eu, na constatação de que – indo e vindo, retornando e tornando a ir – permanecemos imobilizados numa como que eterna Idade das Trevas. E não a confundamos com alguns brilhantes períodos da Idade Média, produtora de maravilhas, conhecimentos e belezas. Não saímos do lugar. Caminha-se em círculos.

Nas antigas faculdades de Direito, era fundamental a leitura de a “Cidade Antiga”, de Foustel de Coulanges. Lê-lo é descobrir que o morador de uma cidade, ainda hoje, é, em quase em tudo, o mesmo homem ancestral que se foi juntando em grupos, que criou famílias, e estas se fortaleceram em fratrias, uniões que formaram tribos e, enfim, tribos criando cidades, idealizadas como um lugar de convivência, de mútua proteção. Naqueles primórdios, as dificuldades eram as mesmas de agora: tribos digladiando-se, famílias conflitando-se e, acima de tudo, o estrangeiro atrevendo-se a invadir o terreno dos grupos.

As cidades são e eram como que uma confederação de grupos. Tal e qual o homem da Antiguidade, pertencemos, ao mesmo tempo, a quatro sociedades totalmente distintas: uma família, fratrias, tribos, uma cidade. E, mais modernamente, a um estado, a um país. Entramos nelas, porém, por etapas. Nasce-se numa família e, depois, é-se apresentado às fratrias, vizinhos, igrejas, escolas; em seguida, pertence-se a uma tribo. E as tribos, numa mesma cidade, tornam-se grupos compromissados com valores, história, leis, códigos, religiosidades, altares, cemitérios, onde o silêncio de nossos mortos queridos emite sinais de sabedoria. Nunca houve cidades sem deuses, como nunca existiu e não existem cidades sem cemitérios.

Para se proteger do estrangeiro – o estranho e, portanto, inimigo em potencial – famílias e fratrias e tribos das cidades construíram muros, fossos, muralhas. Da Cidade Antiga, há construções ainda impressionantes, vivas e imponentes. Quando se ergueu o Muro de Berlim, o passado mostrou-se vivo. E, quando Israel constrói muros para impedir o acesso de árabes, lá está, ainda eloqüente, a velha cidade humana, com muralhas separando tribos de outras tribos, nações de nações. E é o que fazem os Estados Unidos em relação ao México. Não se derrubaram, pois, todos os muros de Jericó.

Dentro de seu condomínio e descobrindo que Beethoven é um cachorro, o menino transmitiu a informação aos colegas por um novo espaço de sonhos e sem muros, a Internet. Mas ele e os amiguinhos estão separados por muralhas que delimitam condomínios de condomínios, em cidades fragmentadas por loteamentos fechados, por núcleos protegidos, a “cidade antiga” modelada por novas tecnologias. Protegendo-nos dos bandidos, os estrangeiros, fechamo-nos como ovos. Mas não nos damos conta de estarmos fragilizados pela ausência do essencial que fundou a cidade humana: o sagrado. Somos anônimos e exilados dentro das próprias fortalezas.

Vão se acabando as praças públicas, os jardins, os locais de encontro, esvaziam-se os clubes recreativos, enfraquecem-se sociedades de mútuos socorros. Na globalização, o homem reencontrou a caverna: ficou preso dentro de casa, cercado pelas muralhas dos condomínios. E receoso, mesmo confinado, de abrir a janela para o espaço de seu vizinho. Não escapamos, ainda, à maldição do exílio, à expulsão do paraíso.

Nessa nova Idade das Trevas, Beethoven é um cachorro. Bom dia.

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