Conduzindo na dança da vida

picture (18)Não se fazem mais danças como antigamente, as de mão na mão, rosto no rosto. Bailes eram celebrações, linguagem de amor, antevéspera de sonhos. A dança é, talvez, a mais antiga manifestação dos sentimentos humanos. E, por isso mesmo, pensadores e sábios definiram-na como “linguagem aquém da palavra”, bastando observar as danças de cortejamento de pássaros. E, também, “linguagem para além da palavra”. Pois, quando não há mais como dizer as coisas do coração, o ser humano dança.

Quando mulheres dizem não saber dançar, não é verdade. Elas bailam. E bailam quando sozinhas e sabem dançar sem parceiros. Mulheres há, porém, com medo da magia da dança a dois, das mãos dadas, dos corpos próximos, da respiração ofegante, do pulsar emocionado do coração, das vísceras. Pois – num tempo em que a mulher foge à sua feminilidade e o homem não sabe mais da sua masculinidade – dançar é o retorno mágico ao primitivismo fantástico da vida, à festa do cortejo, a mulher deixando-se conduzir ao som das melodias, a parceria da confiança e da reciprocidade. Dançar a dois é entregar-se um ao outro. Ou promessa de entrega. Ou ensaio. Ou antevéspera de algo mais profundo e verdadeiro. É o instinto da vida.

Aos jovens, tem-se negado o direito de conhecer a dança como mistério e encantamento. Vive-se, agora, a dança tribal, o furor guerreiro de metais e tambores provocando irracionalidades. A dança de um casal, porém, é harmonia, um encontro que os antigos compararam ao movimento fundante do próprio universo. Para os gregos, Pan era o criador e quem dirigia a dança dos deuses; dança e música regulavam o movimento regulador do universo. Entre os hindus, Shiva é o dançarino cósmico que desperta energias adormecidas. E Davi, amado por judeus e cristãos? A dança dele, diante da Arca, encantou seu povo como se criasse o princípio e, a partir daí, surgissem as danças sagradas.

A dança de homem e mulher, a verdadeira – de entrega e de doação, de sedução a dois – é êxtase. E, portanto, uma forma de embriaguez, talvez a mais libertadora. Pois a dança é, também, libertação. Se, no Velho Testamento, a dança fazia parte das promessas de um próximo tempo de salvação, os cristãos primitivos temeram-na. Eles sabiam que homem e mulher – embevecidos pela dança – seriam, de alguma forma, íntimos dos deuses pagãos. João Crisóstomo – doutor e santo da Igreja dos primeiros séculos – condenava os movimentos corporais da dança: “o diabo está presente onde se dança.” Para alguns, ainda está…

Rapazes e moças têm bloqueios de dançar com seus parceiros, mas pulam, saltam, agitam-se, balançam-se em danças individuais. Entende-se: a dança a dois é muito mais do que um movimento de corpos ou um apoio de mão em outra mão. Em havendo enlevo, é comunhão. São, porém, tempos de recusa a qualquer forma de comunhão.

Na dança, homem e mulher – desde tempos imemoriais – podem chegar como que a um estado de fusão, em movimentos que somam percepções estéticas, religiosas, eróticas, místicas,como em sonhos. É dom dos seres vivos e graça dos humanos. Basta apenas um olhar às danças tribais e ao encantamento do cortejo garrulante dos pássaros, nessa eterna “linguagem aquém da palavra”.

E estou querendo dizer o quê com isso? Nada. Apenas reflito em torno de texto antigo. Se uma mulher evita dançar com um homem – temendo confiar em braços que a levam salão a dentro – como conseguirá, ela, estar, com esse mesmo homem, na grande dança da vida? Alguém, no baile do casal, tem que conduzir a dança. Bailar em separado é outra história. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins)

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