Consciência tem cor?

Zumbi dos PalmaresConsciência é algo muito mais complicado do que o conceito simplista que se lhe dá. E a complicação aumenta quando se tenta falar, por exemplo, em “consciência nacional”, “consciência de um grupo”. Esse feriado da “consciência negra” parece-me discutível – e já opinei sobre isso desde o início – não por causa do feriado, mas pela cor da consciência. Ora, se há uma consciência negra, torna-se, então, óbvio que haja consciência de outras cores: a branca, dos caucasianos; a amarela, de japoneses e outras etnias. Isso levaria, então, à fragmentação do principal objetivo e do maior dos sonhos da humanidade, que é a fraternidade.

Por externar minha opinião, já fui chamado de racista e de preconceituoso, pouco interessando o meu histórico de vida de grandes amigos negros, judeus, italianos, japoneses e outros, desde a infância. E entre as mais belas lembranças que tenho, algumas são de pessoas negras com quem convivi. E o meu amor por três netos negros, nascidos nos Estados Unidos e lá residentes. Na verdade, eu não deveria dar explicações por ter opinião. No entanto, nesses tempos absurdos – nos quais o politicamente correto tenta, na verdade, uniformizar o pensamento – nem mesmo mais se sabe o que seja opinião.

É tragicômico ver as incongruências, as contradições, as tolices dos que – defendendo o direito de expressão, de opinar – ficam abespinhados ou inconformados quando a opinião do outro é diferente da sua. Transformam a opinião em dogmatismo, como se fosse verdade plena. Mas opinião é exatamente o contrário: uma percepção apenas pessoal, que, desde Platão, “é algo intermediário entre o conhecimento e a ignorância.” Não tem, pois, caráter definitivo e nem pode ser entendida como algo correto ou exato. É simples opinião, um ponto de vista. Quando a questão ou o problema exigem exatidão – com grandes investigações e fundamentos científicos – a opinião se transforma em juízo. Um jornalista tem apenas opinião, como qualquer do povo. E ele a externa, por dever de expor o que pensa apenas como ponto de partida ou de provocação para discussões maiores.

Narrar um fato não é opinião nem juízo, mas simples narrativa. Discorrer sobre ele passa a ser opinião e, portanto, questionável e discutível. Uma das bases da democracia está em respeitar-se a opinião do outro mesmo não concordando com ela. Sabendo, porém, que, por serem opiniões, ambas as faces da moeda  são frágeis e questionáveis.  Para mim, portanto, se houver uma “consciência negra” – e criar-se um feriado para ela – há o direito de se falar em “consciência branca” e, então, criar-se um feriado para os caucasianos. E para outros. Teremos, então, inevitavelmente, uma fragmentação e uma segregação. É uma opinião.

Esse “Dia da Consciência Negra” é, na verdade, uma homenagem a Zumbi dos Palmares, o herói em defesa dos negros escravizados e maltratados. Zumbi foi um grande líder, figura ainda mais lendária do que real no sentido de sua luta, que se casou com uma mulher branca, Dona Maria, filha de um grande proprietário de terras. Logo, Zumbi lutou contra os escravagistas, fossem brancos ou negros, pois sabe-se muito bem – ainda que isso sempre se oculte – que os maiores traficantes de negros eram os próprios reis negros africanos, que aprisionavam seus adversários para vendê-los ao homem branco. Basta conferir com historiadores negros notáveis como Edson Carneiro, Alaôr Scisínio e outros. Nos tempos coloniais, um dos homens mais ricos do Brasil era um negro brasileiro, mercador de escravos.

Minha simples opinião, pois, é a de que consciência não tem cor. E, portanto, uma “consciência negra” é aberração e corre o risco de causar fissuras na luta, ainda agora, contra o preconceito de cor, de origem, de gênero. Seria muito mais fácil de entender se fosse um dia da cultura negra, esta, sim, fundamental para o Brasil, forjadora de um povo que se tornou mestiço, com raízes fincadas na língua, na culinária, na música, nos costumes, na generosidade que, como herança, foram deixadas pelo escravos a todos os brasileiros.

E que nunca se esqueça: negros foram barbaramente escravizados. Mas essa mesma odiosidade foi dirigida a imigrantes alemães, italianos, árabes, japoneses, judeus que – não sendo escravos – foram tratados como se o fossem. O passado tem mil faces. E a maioria delas horrenda. Bom dia.

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