Contando mortes.

Já há alguns anos venho desconfiando de pesquisas que informam o crescimento da população mundial. Pesquisadores, institutos, universidades dizem que há uma explosão populacional, algo que nos remete a Malthus e à sua advertência quanto a alimentos e bocas a alimentar. Realmente, quando se fala de superpopulação, lembramo-nos, quase que automaticamente, de China e de Índia que, aliás, estão quase empatando em absurdas cifras populacionais. De quase 7 biliões de habitantes no mundo, quase três milhões estariam na China e na índia. E esta, conforme as últimas previsões, deve superar aquela nos próximos anos.

No entanto, começo a duvidar disso. Pois, pelo que vejo e ouço em telejornais e em informativos da televisão, o número de mortes e de mortos deve estar suplantando em muito o de nascimentos. Ora, quantos, por dia, morrem – seja no trânsito, em guerras, em atentados – nas telas de televisão? De repente, são mais de 100 na queda de um avião; 200, num atentado no Paquistão; 55 ao lado de uma mesquita de Bagdá; 215 no Afeganistão. E, agora, com a entrada da Líbia no cenário, o número aumenta: ontem, 50; hoj, 72. Além do que também ocorre no Iêmen, no Barhein, na Síria, em Israel e na Faixa de Gaza. Sem contar o morticínio que ocorre também quase diariamente na África. E, também, sem qualquer referência aos que morrem de fome, aos que o mundo não conhece, aos que não estão nos registros policiais ou jornalísticos.

Ora, há poucas semanas, a ONU divulgou que são um bilhão e trezentos milhões de seres humanos literalmente famintos no mundo, abaixo do que eles chamam de linha da pobreza e, portanto, na miséria total. Esses miseráveis não estão nos relatos diários das emissoras de tevê.

Pois bem. Resolvi, ainda no domingo à noite, confirmar minhas suspeitas. E, no jornal das 22 horas, tomei de caneta e caderno e aguardei as informações. Na primeira chamada, tinham morrido 52 no Paquistão; na segunda, 37 no Iêmen; depois, 55 no Barhein. Fui somando mas, quando o locutor informou as ocorrências na Costa do Marfim e também na Líbia, perdi a conta, pois não deu tempo de anotar. No entanto, confirmaram-se-me as suspeitas: a confiar nas informações de nossos gloriosos meios de comunicação de massa, a humanidade está em processo de esvaziamento. Na tevê, morre mais gente do que nasce nos quadrantes do mundo.

Aliás, outras anotações, que ando fazendo, referem-se ao trânsito em Piracicaba. Comecei a contar, em minhas poucas saídas, quantos automóveis circulam com apenas um passageiro, incluindo aqueles imensos carrões importados que, aliás, serão produzidos, também gloriosamente, por aqui. Se, naqueles trajetos, ainda houvesse linhas de bonde, as nossas ruas estariam quase vazias. Digo quase porque, pela contagem que ando fazendo, o número de motos começa a suplantar até mesmo os dos mosquitos da dengue. Paro por aqui, para não dizer de uma outra quase certeza de que ando tomado, a de que, do jeito como insiste em caminhar, a humanidade se vai tornando inviável. Bom dia.

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