Converter-se e trair-se

ConverterA vida – ou os deuses? – cria surpresas que acabam sendo determinantes. Algo aparece e surge, ou alguém, e, então, tudo se altera, como se sentimentos, desejos, intuições sofressem impactos que se tornam catárticos.

Acredito que, no fundo de nós, cada um sabe aquilo que não quer, tendo, porém difuso ou confuso aquilo que quer.

A vida cria raízes e hábitos. Rompê-los é, quase sempre, não apenas um ato de coragem, mas uma decisão traumática. Por isso, fica-se naquele vai não vai, faz não faz. Se não houver rompimento decisivo e definitivo, a pessoa fica dividida e, então, tudo piora.

Não está lá nem cá, não faz o novo e deixa de fazer o velho, a corda bamba. A angustiante e angustiada indefinição da própria identidade. Sabe-se o que não quer, o que deixou de querer. Mas não se sabe – ou se tem medo – o que quer. A saída mais comum – e, também, a mais infeliz – é aquela de deixar estar para ver como fica, uma saída que acaba, sempre, levando à conformação, à aceitação da própria infelicidade, ao marasmo que tem sabor de derrota. E que é uma derrota pessoal.

Quando se está insatisfeito, infeliz, é preciso converter-se. E converter-se é, quase sempre, trair-se. Quando alguém se converte a uma nova situação, acaba traindo a anterior. Acho que é esse o maior medo das pessoas: o de trair o que existe ou que existiu. Pois trair-se a si mesmo é renegar quase tudo em que se acreditava ou pensava acreditar.

Converter-se e trair-se são elementos inseparáveis um do outro. Quem não se converte por inteiro a uma nova causa, a um novo estilo de vida, a uma nova maneira de pensar e de viver, está simplesmente cometendo pequenas traições a si mesmo, que são mais dolorosas.

Retomo o início e penso na vida que cria surpresas. A vida ou os deuses?

*Publicado originalmente na Tribuna Piracicaba em março de 1993.

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