Corrupção e destino

Ainda me espanto com muita coisa. No entanto, não consigo estranhar a corrupção, surpreender-me com ela.. É como se, de algum lugar do infinito, ainda ressoassem as palavras do pensador dizendo-nos que nada do humano deveria ser-nos estranho. Mas ainda me espanto de deslumbramento. Diante da corrupção e das misérias humanas, já não sei. Pois a história se revela sempre mais banal do que parece.

Lembro-me de, em bancos escolares da infância, ouvir zelosos professores espantados com escândalos políticos, com a corrupção no país. Indignados, brandiam a “Oração aos moços”, de Ruy Barbosa. E eles faziam suas as amarguras do grande mas esquecido brasileiro alertando sobre um tempo, que já parecia presente, da “vergonha de ser honesto”. Nas explosões da adolescência, não acreditávamos que o mal vencesse o bem, que o bandido, no final da história, ganhasse do mocinho. Estávamos errados.

Pessoas escandalizando-se com a corrupção política, como se fosse novidade. Mas é história banal, com gente daqui também. E ela nos chega das funduras do mundo e das caravelas portuguesa. Ora, ouço pessoas decentes falando disso desde 1954, de quando denúncias de corrupção levaram Getúlio Vargas ao suicídio. E a construção de Brasília, tempos de Juscelino? E Jânio, com o símbolo da vassoura para “varrer a corrupção”, relevando-se pior do que os antecessores? E com Jango? E o golpe dos militares, o poder repartido entre as casernas e o empresariado nacional e internacional? E Collor, caçador de marajás? E no governo Sarney? E os escândalos da era Fernando Henrique? Agora, sob os pés de Lula, a lama apenas continua a correr. Nunca estancou.

Parece ter havido algo profético naquela propaganda de cigarros protagonizada pelo futebolista Gerson, campeão do mundo: “É preciso levar vantagem em tudo.Estávamos sendo apresentados a uma nova opção de vida, de aceitação, de entronização dos espertos. Levar vantagem passou a ser palavra de ordem, influindo na educação, na moral, na vida conjugal e familiar. Não mais importam meios, métodos, recursos. Levar vantagem e vencer sempre: na vida, na escola, na carreira, na profissão, numa acelerada procriação de desonestos cada vez mais competentes.

De minha parte, aumenta-me a confusão à medida que perco o espanto diante da corrupção. Pois fico, em alguns momentos, receoso de meus maravilhamentos diante do ser humano: vale a pena? E se o homem for uma excrescência da natureza, um acidente, um corpo estranho e perigoso? Pois não há como negar: o ser humano é corruptível. E isso nada tem a ver com questão moral, de valor, de prêmio ou castigo, de bem ou de mal. É mais simples: a corrupção faz parte de tudo o que é vivo. Como um destino. Pois corromper significa estragar, deteriorar, apodrecer. E tudo o que é vivo se estraga, deteriora e apodrece. Na política, acontece mais rápido, como se fosse da natureza dela.

Ora – em todas as culturas e religiões, desde as primitivas – apenas deuses e deusas são incorruptíveis. E que, portanto, não se estragam e não apodrecem e não deterioram.

Por que acreditar que partidos políticos não se corrompam, se a busca deles é exatamente o que há de mais corruptor, o poder? Em cada minuto de nossos dias, vivemos como se fôssemos eternos, imorredouros e, portanto, imortais. No entanto, qualquer ente ou entidade viva envelhece, enruga, adoece, declina, caduca, arruina-se, estiola-se, definha, decai. É a corrupção da vida, do corpo, a falência. E falência é fim. Portanto, morte.

Na classe política, há falência. Nela, morre a esperança. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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