Cotubaína

Uma revista semanal publicou, com destaque, a importância crescente, no mercado, das chamadas “tubaínas” – refrigerantes fabricados com menores recursos industriais, menos conhecidos, quase que apenas familiares. Piracicaba teve – em seus imensos tesouros culturais e pioneirismo de nossos ancestrais – fama também por seus refrigerantes, especialmente a gengibirra e a cotubaína.

Havia a gengibirra dos Andrade – da família de Thales de Andrade – e Orlando, esta ainda existente. Tornou-se parte do folclore piracicabano o quase “slogan” do refrigerante: “gengibirra é bom pra arrotá”. Os refrigerantes famosos – Coca-Cola, Pepsi, Crush, entre outros – não tinham, ainda, a popularidade e o consumo atual, de forma que gengibirras e tubaínas faziam parte do cotidiano dos piracicabanos. Com os peixes do rio, com os goles das mais diversas e famosas de nossas cachaças.

Tive o privilégio – mais um dos muitos com que os céus me beneficiaram – de ser muito próximo de Thales de Andrade, o grande e imenso Thales, pioneiro da literatura infantil brasileira, pois seus livros antecederam os de Monteiro Lobato. Eles eram amigos próximos. Thales muito achegado a meus pais, visitava-nos sempre e tive a honra de ser, ele, um dos prefaciadores de meu primeiro romance, “Um eunuco para Ester”. Teria muito a contar a respeito de Thales, muito ainda tenho, mas “tempus fugit” e me atropelo de ansiedade com tanto o que ainda pretendo narrar, deixar por escrito, testemunho de quem viu, de quem participou.

Por que o nome Cotubaína? Foi o que perguntei a Thales, certa vez, intrigado com uma palavra que sempre me parecera complicada. Thales foi o criador do neologismo “caipiracicabano”, popularizado por João Chiarini. Sua fala era tipicamente caipiracicabana, ele que foi Secretário da Educação do Estado de São Paulo. Para Thales, o nosso era o “maravilhoso sarto do rio Piracicaba”, uma “barbaridade de beleza” para quem tem “zóio” de ver.

Rindo, mexendo as panças – pois Thales engordara muito, um glutão e amante de boas bebidas – ele contava de quando seu pai criou o sabor da nova tubaína, já bem recebida à época. Quando a experimentou, o próprio Thales estalou a língua de tanto prazer e exclamou, cumprimentando o pai: “Pai, esse refresco está cotuba, cotuba prá daná.” A palavra “cotuba”, à época e segundo Thales, tinha o significado que, para nós, passaram a ter palavras como legal, bacana, jóia. “Cotubaína”, pois, era uma tubaína legal, jóia, dez. Thales de Andrade criou o nome, a família aceitou.

Nunca consegui entender que a gengibirra e as cotubaínas não fossem comercializadas em embalagens menores como as de outros refrigerantes. Parece que, há pouco tempo, a gengibirra dos Limongi começou a produzir garrafinhas menores, sei lá. Isso, porém, apenas confirma uma das características e singularidades de nossa terra e de nossa gente: estamos tão mal acostumados com o bom e com o belo, com o pioneiro e o criativo que mal lhes damos importância, como se não tivessem valor. E o que dizer dos mestres cervejeiros do século 19, com suas produções artesanais que se tornaram famosas e que, hoje, passaram a ser como que uma nova moda em todo o mundo? Ah!Piracicaba. Tão cheia de flores, tão cheia de encantos – mas tão indefesa e descuidada de si mesma, tão passiva diante de aventureiros de todos os naipes e calibres. Dói. E muito. Bom dia.

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