“Criança! Não verás país como este!”

Pão e circo Copa 2014Na mitologia grega, Trofônio foi um grande arquiteto que realizou obras monumentais. No entanto, abusou de seus poderes, apoderou-se de bens do rei e, como castigo, a terra se lhe abriu sob os pés, engolindo-o. A alegria de Trofônio desapareceu na caverna onde ele fora sepultado. Assim, quando se fala em tristezas, sentimentos sombrios, diz-se estar-se encerrado na caverna de Trofônio. O Brasil – por obra e graça de cúpidos aproveitadores – parece, com tanto mau-humor e pessimismo, mergulhado nessa caverna.

Desculpem-me, porém,  os pessimistas e os ranzinzas. E, também, os mau-humorados, os neurastênicos, mal-amados,  derrotistas. Perdoem-me os desesperançados, os tristes, os deprimidos, os desolados. E, também, os desalegres, macambúzios, desalentados, taciturnos. E, em especial, perdoem-me os baderneiros, cafajestes, irresponsáveis, vendilhões. Pois o circo chegou e o Brasil volta a ser aquilo que é: mulato, inzoneiro, feliz, apaixonado, hedonista, lúdico, adoravelmente amante da vida, o melhor lugar do mundo para se viver. E sai da caverna de Trofônio.

É óbvio, claro, cristalino estarmos deliciosamente diante de “pão e circo”. Ao povo, já se tinha dado o que comer, o pão está na mesa. Absurdamente, porém, com a malévola campanha de terrorismo emocional, o mesmo povo tornou-se triste. Faltava-lhe o circo. E o circo chegou. A Copa é circo.  E o povo já sai às ruas perguntando e vibrando e rindo e alegrando-se: “Hoje, tem marmelada? Tem, sim, senhor. E tem goiabada? Tem, sim, senhor. E o palhaço o que é? É ladrão de muié.”

O futebol é o ópio do povo? De uma certa maneira, sim. Como a religião, as paixões, as ilusões, os sonhos, a esperança. No entanto, é o de que precisamos para sair da caverna cruel e manipulada por poucos: “le joie de vivre”, a alegria de viver, de estar, de conviver, de vibrar, do êxtase, da festa. O futebol carrega tudo isso, pois, mais do que um esporte, é jogo. E jogo é paixão, atordoamento,conflito, vibração. Jogo não é apenas jogo. Está acima da materialidade.  O jogo vai além de si próprio, com todas as suas implicações culturais, sociológicas, econômicas, políticas.

O jogo apaixona porque a própria vida é um jogo. É a imensidão de nossa natureza lúdica que busca a alegria, o brinquedo, a brincadeira. Em todos os tempos – mas, em especial, na sociedade feudal – a humanidade se deixou seduzir por jogos, por torneios, por competições.  Até os animais brincam entre si, divertindo-se, evitando morderem-se, agredirem-se. O futebol é – entre os esportes e os jogos – o que mais se aproxima da realidade individual e coletiva.  Por isso é que a paixão universal pelo futebol aproxima povos, interrompe e causa guerras. O mundo desacelera-se quando há torneiros mundiais, como Copa do Mundo e Olimpíadas. E os interesses multiplicam-se, influindo sobre todas as esferas de atividades. A economia aproveita-se dessa paixão. E faz a roda da vida girar. Ou somos ingênuos demais para não saber de toda uma indústria do entretenimento por trás disso?

A Copa do Mundo no Brasil é um momento único para revitalizar a identidade nacional.  Trata-se de realizar-se, no Brasil, o maior espetáculo da Terra, como se o país se transformasse num imenso “Cirque de Soleil”, maravilhando o mundo. Quando Jerôme Valke – da FIFA – falou, com sua proverbial grosseria, que o “Brasil não é Alemanha”, ele disse  tudo. Somos o Brasil, uma nação ainda adolescente, um país que se agiganta diante do planeta, saindo de sua modorra e superando seculares complexos de inferioridade. Estamos em formação, sofrendo todos os efeitos do crescimento, um rito de passagem entre a adolescência e a maturidade.

O mundo – através do milagre dos veículos eletrônicos de comunicação – estará com os olhos voltados para nós. O estrangeiro nos ama mais do que  nos amamos a nós mesmos. E nos inveja. Qual, então, a maldição que nos pesa na alma, ao maldizer deste país, ao estimular a mediocridade, ao torcer pelo pior? A sabedoria do sociólogo Domenico de Massi somou-se a tantos outros pensadores e descortinou que, aqui, no Brasil – neste “país do jeitinho” – começa a surgir uma nova civilização, mais fraterna e solidária. Por que – meu Deus! – lutarmos contra?

Nasci e cresci, ouvindo e recitando os versos primorosos de Olavo Bilac:

 “Criança! Não verás país como este! Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste! Olha que céu, que mar, que rios, que floresta! (…) Imita na grandeza a terra em que nasceste!”

Acreditei, ainda acredito e quero que meus netos usufruam dessa grandeza. Rendamos, portanto, graças. Pelo menos, em favor das próximas gerações.

(Esta crônica foi publicada na edição de 07/06/14 no Correio Popular de Campinas)

1 comentário

  1. Delza Frare Chamma em 10/06/2014 às 16:28

    Cecílio! Linda esta crônica! Deliciosa mesmo, eu diria. Quero ser como você quando crescer e um dia escrever uma crônica apaixonante feito essa.

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