Cristãos e pagãos

picture (26)No Domingo de Páscoa, lembrei-me dos dois ratinhos da fábula de Esopo. Um morava no campo; o outro, na cidade. O ratinho do campo convidou o da cidade para visitá-lo na relva onde morava. Ao ver do que se alimentava o ratinho do campo – grãos de cevada, raízes com gosto de terra – o da cidade teve pena e convidou o amigo para jantar na despensa onde ele se fartava, lugar urbano com queijo, figos, cereais.

O ratinho do campo foi. E se deslumbrou com tantas guloseimas. No entanto, na hora de se banquetearem, os dois ratinhos ouviam passos de pessoas que chegavam e que saíam. Fugiam, voltavam, esperavam. E assim foi, a noite toda. Com tantos petiscos, nada comeram. Então, o ratinho do campo desistiu e, como moral da história, falou: “Vou-me embora para minha casa. Aqui, tudo tem fartura, mas é perigoso. No campo, a comida é simples mas eu tenho paz e segurança.”

Voltei a pensar na simplicidade das coisas. Pois, na verdade – com tanto luxo e com tanto espetáculo, com ambições sem fim – estamos na escuridão e sem lamparina. Entramos no deserto sem ter estrela guia. Aceitamos navegar por mares encapelados mas ficamos sem bússola. Falamos que o jogo da vida não mais tem regras e isso não é verdade. O jogo é o mesmo, com regras que mudaram em favor de malandros e oportunistas, ratinhos da cidade. Ingênuos ratinhos do campo ficaram perplexos como cordeiros, da outra fábula, que são comidos por lobos que perdem o pelo sem perder o vício.

E temos medo, impotentes diante de novas regras de um jogo confuso. Para onde vão nossos descendentes, levados por esses maremotos e furacões avassaladores? A quem recorrer, de quem socorrer-se? Eis o vazio: à qual divindade, maior do que nós, mais sábia, mais poderosa, mais capaz de consertar e de proteger?

Admito precisar de divindades, minha humanidade perplexa e incapaz de grandes soluções. A fábula dos ratinhos me despertou o fascínio da adolescência: querer ser pagão. Um de meus professores, recorrendo a Cícero, ensinava o significado original do homem pagão, o “paganus”: como o ratinho da fábula, pagão era o homem da aldeia, o aldeão. Ora, minha terra é minha aldeia, sinto-me, pois, aldeão, “paganus”. Fosse, eu, pagão e – nesse caos social e moral – invocaria Pã, que é “todo”, “tudo” e de “todos”. Pã entende de confusão, de sustos nas matas, nas cavernas, amoroso e aventureiro. Pã faz parte do pânico. Mas onde estão deuses, entidades e divindades da natureza?

Num mundo urbano e em tempos sem sonhos, é quase impossível ser “paganus”. E, no entanto, há uma arquitetura religiosa que contém toda a sabedoria da humanidade, desde a mais remota Antigüidade. É a Igreja Católica. Nela, ao contrário do que tolos pensam – e fui um deles – há respostas seguras, até mesmo quando não nos convêm. É uma engenharia mística e moral que, a partir da crença em Cristo, permite o jogo da Vida tenha regras permanentes, mesmo quando ventos e temporais tentam solapar estruturas. Há respostas e tesouros para cada tempo da vida, sacramentos que impedem nos percamos na noite escura ou no deserto solitário. Toda a sabedoria da humanidade – através de milênios de cultura e de povos que se entrecruzaram – foi recolhida como herança pela Igreja Católica. Herança é tradição. Tradição é transmissão.

Ora, deuses pagãos morriam e renasciam. O cristão – como o pagão grego – tem um Deus que morre e renasce. E que se dá como alimento. O católico acredita comer, diariamente, do corpo do próprio Deus. Mais plenificante do que essa comunhão do divino e do humano, quê há de? A razão não resiste. Bom dia.

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