Culto a Lula

Lula 6Quando da primeira posse do presidente Lula, acompanhei o momento histórico na cidade de Vitória, Espírito Santo, onde passei aquele réveillon. A emoção era forte e havia eletricidade no ar. O povo se lamentava da falta de chuva que castigava a cidade e a população. No dia da posse, feriado, as ruas estavam desertas, como se os únicos sons fossem os dos televisores, um sem conto de pessoas acompanhando o acontecimento. Foi assim no hotel em que eu estava. Então, começou a chover. Um dos homens da recepção foi até a porta, alguns outros o acompanharam, eu mesmo fui observar a chuva cair, algo que me fascina. Foi quando o gerente falou, olhando para o céu: “Graças a Lula.” O mito começava a ser criado e, hoje, sinto ter sido testemunha de pelo menos um desses indícios. Ao longo de dois mandatos, com uma popularidade superior a 82% da população, há que se perceber, que se captar, até mesmo com temores: Lula está, em largos setores da opinião pública, próximo, muito próximo da deificação.

Já, à segunda posse, vi o acontecimento em Salvador. Também pela tevê. Novamente, chovia. E as pessoas, alegres, acostumadas, felizes, diziam-se entre si, umas para outras, entre galhofeiras e sérias: “Com Lula, tudo de bom acontece. E chove sempre que necessário.” O ícone estava quase pronto e acabado. E um homem-lenda nascera.

Há alguns meses, aguardando ser atendido pela moça do caixa da farmácia, ouvi a mulher idosa, à minha frente, comentar, após pagar quase simbolicamente por diversos remédios de farmácia popular: “Temos que rezar pela vida desse homem que somente fez bem ao povo.” E a moça, sorrindo, comentou: “Eu já estou com saudade dele.” Foi antes das eleições. Era o bem-amado, acarinhado por seu povo.

Essas coisas, eu as escrevo – refletindo ainda mais sobre acontecimentos e a personalidade de Lula – a partir de uma simples reprodução de notícia que fizemos, a das jovens empresárias que, encantadas com Lula e ele encantado por elas, foram capa do jornal “O Estado de São Paulo”. Reproduzimos a foto por referir-se a gente nossa, a jovens mulheres socialites que se mostravam felizes ao lado do presidente e que conseguiam, dele, gestos cordiais e coloquiais que marcam a simpatia natural e esfuziante desse homem que, agora, acho que posso chamar de homem-enigma. Pois é um enigma esse fascínio que Lula exerce. E enigmas, também, o tirocínio, o discernimento, a visão, a capacidade de governar com um estilo populista que cativou todas as classes sociais.

Pois bem. Publicada a foto, alguns leitores fizeram seus comentários. E um de nossos colaboradores – e meu querido e velho amigo pessoal e do coração – Roberto Antônio Cera fez um comentário ácido, ao estilo que o caracterizou desde os tempos em que, em O DIÁRIO, foi responsável pela edição da polêmica, crítica e atuante página Recados. Naqueles tempos, o Cêra era, na minha percepção jornalística, o nosso Stanislaw Ponte Preta caipira, com suas tiradas divertidas, sagazes, geniais. Por muitos e muitos anos, o Cêra provocou e estimulou polêmicas. Com sua ironia, seu sarcasmo estilizado, sua perspicácia, Cera adotou o “ridendo castigat mores” e sofreu por isso. Chegou a ser agredido em praça pública, foi processado e vítima até das perseguições que me atingiram ao longo da ditadura.

O comentário de nosso Roberto Antônio Cera – a respeito da foto das três jovens senhoras ao lado do presidente Lula – produziu, no entanto, uma reação de outros leitores que, confesso, poucas vezes vi nesses meus tantos anos de jornalismo. Talvez, não tenham sido observações mais felizes, não sei. Mas foi tão grande a saraivada de protestos que, de repente, alguns que criticavam o Cêra pelo que diziam ser grosseria do jornalista, acabaram sendo grosseiros tanto quanto ou mais, se grosserias houve. E, de minha parte – acolhendo as diversificadas opiniões, que não feriram dignidade de ninguém – acabei por ver mais outro testemunho de que a figura de Lula, presidencial e pessoal, se torna, agora, próxima da intocabilidade, de algo sagrado, de um patrimônio cívico humano que bloqueia toda e qualquer contestação. A oposição se sente inibida, bloqueada, porque a crítica a Lula provoca reações passionais como se fossem religiosas ou familiares. Foi o que aconteceu com José Serra, que não teve coragem de criticar o presidente, recuando e negando identidade à sua candidatura.

Já se poderia falar num culto a Lula? Não sei. Mas a realidade é que ele desperta paixões avassaladoras, a favor e contra. E isso inibe, obstaculiza e até mesmo impede qualquer debate racional a respeito. É como se ninguém mais conseguisse referir-se a Lula, para o bem e para o mal, sem expressar-se com paixão. Tudo é maximizado, admiração e repulsa, como se houvesse um confronto entre amor e ódio. Estou apostando em que, na posse de Dilma Roussef, haverá multidões pedindo a volta de Lula, um novo “Queremismo”, ainda mais poderoso e vital do que o de Getúlio. Eis aí: Lula eclipsou Getúlio, Juscelino e faz Fernando Henrique beirar o ridículo de inveja. Mais do que enigma, é mistério. Dos grandes. Dois perigos, porém, rondam esse debate e qualquer análise: o culto a e a demonização de Lula. Se ocorrer, será o fim da razão. Bom dia.

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