D. Eduardo e Confíteor

Foi anunciada e esperada a morte de D.Eduardo Koaik, bispo emérito de Piracicaba. Na verdade, amigos mais chegados chegaram a desejá-la, tal o martírio a que ele se submetia. Foram anos de longa luta, cirurgias, que provavam a força moral do terceiro bispo de Piracicaba. Nenhuma queixa, nenhuma reclamação, apenas demonstrações palpáveis e visíveis de sua imensa fé.

Fui um dos primeiros a ser apresentado a D.Eduardo Koaik, mesmo antes de ele assumir a sua responsabilidade de administrador apostólico, já ao final do episcopado do doce e terno D.Aníger Melilo, seu antecessor. A vida me deu – e ainda me dá – presentes preciosos. D.Aníger e D.Eduardo são dois dos mais ricos desses presentes. O primeiro, vendo-me despertar para fé, mãos que me acolheram, parteiro de minha conversão. D.Eduardo – quando minha fé ruiu e desmoronou todo um mundo em que acreditei – se tornou o médico, o amigo, o confidente, aquele que orou por mim por mais de duas décadas, aguardando o meu retorno, acreditando nisso.

D. Aníger Melilo – meu pai espiritual, cuja ausência ainda me dói na alma e na carne – foi a única pessoa nesse velho e conturbado mundo a quem me submeti com docilidade e confiança. Sua espiritualidade, sua doçura, seu esbanjamento de amor me seduziram de tal forma que caminhei pela vida com confiança plena, total, o coração abrasado de paz e amor. Ele me amava. Eu o amava. D.Aníger – nos excessos de minhas lutas políticas contra a ditadura – me alimentava de forças espirituais. E suas repreensões, quando aconteciam, vinham da doçura de seu olhar. Era como se, mesmo não concordando, ele compreendesse. E me perdoasse. Dizia-me: “Meu filho. Uma gota de mel atrai mais moscas do que um barril de vinagre.” Demorei a entender. Mas entendi.

Não fui ao velório de D.Eduardo Koaik. Mesmo aguardando sua morte, fiquei numa solidão profunda. Pois, diferentemente da relação pessoal que tive com D.Aníger, a nossa – minha e de D.Eduardo – foi intensa no plano intelectual, filosófico, político, teológico. Nunca o confessei declaradamente, mas faço-o agora, em homenagem a D.Eduardo Koaik, meu amigo: minhas prisões políticas – de tão moralmente violentas e profundas – atingiram-me no mais profundo de mim. Não reclamei, não protestei, zombei da justiça da ditadura. Mas meu coração ficou em frangalhos. E minha crise pessoal foi, a pouco e pouco, intoxicando-me. Foi como se eu me despisse, vez por vez, de todas as minhas convicções e crenças. Fui atingido no meu núcleo mais sagrado, o da alma. E fui derrotado. Desisti de meu jornal, destruí um casamento maravilhoso, não enxerguei mais horizonte algum. E perdi a fé, a imensa fé que me movia e que me fez crer num Jesus Cristo que, enfim, substituíra Che Guevara, Marx, Fidel Castro.

D.Eduardo não me abandonou. Acompanhou-me passo a passo. Dizia-me e dizia aos mais próximos: “É mais uma briga do Cecílio. Ele, agora, está brigando com Deus, com Jesus Cristo, com a Igreja.” E sorria, afagando-me com um sorriso amigo: “Ele só não briga com Nossa Senhora.” Dei-me conta dessa verdade. Mesmo tendo perdido a fé, afastando-me de convicções religiosas, a presença de Maria jamais me abandonou. Não sei explicar o porquê. Ou sei e ainda me acovardo em admiti-lo. Transformei em hábito a recitação do terço: em minhas tardes, caminhando por meu jardim; no trânsito, dirigindo; na academia, exercitando-me. Mais do que oração, tornou-se meu mantra. Talvez, eu esteja orando e ainda não saiba. Ou não queira admitir.

Discussões homéricas, divergências intensas, tivemo-las, D.Eduardo e eu. E ele, com seu jeito aparentemente frio de ser, parecia pajear-me. Ficava, como o Pai da parábola, à espera do filho pródigo. Esperou, esperou, com a certeza de que eu retornaria. Certa madrugada, com angústia mortal, eu lhe telefonei, acordando-o: “Onde está o meu Cristo que desapareceu?” Ele, sem qualquer sonolência, apenas respondeu: “Continua dentro de você que se fechou para não senti-lo.”

Na sua missão de bispo, era austero, discreto. Em reuniões amenas, era o homem de comunicações, intelectual refinado, adorável em suas análises políticas e religiosas. Seu amigo de Seminário, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, vinha a Piracicaba para aconselhar-se com ele. E, muitas vezes, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em residências de amigos em Piracicaba, na minha mesmo, tomávamos cerveja, chopinho, bons vinhos. E o ser humano Eduardo Koaik aparecia, de uma beleza madura e forte, com alegria contida.

Então, aconteceu. D. Eduardo Koaik, meu amigo, viu seu desejo realizar-se, serem-lhe atendidas as preces, o filho pródigo retornando com humildade e nova fome de plenitude. Ele – doente, o câncer avançado – fez questão de presidir meu casamento com Elaine. Na Igreja de São Dimas.E meu querido Monsenhor Jorge como coroínha. Quando, das mãos de D.Eduardo, recebi a Eucaristia, meu peito explodiu, meu coração se rompeu, a alma voou. Chorei um oceano de amarguras represadas, de desilusões doídas, de mágoas reprimidas. Foi o choro da libertação. D.Eduardo nos abraçou e,antes de mim, ele já sabia: minha fé estava apenas hibernada em meu inverno da alma. Pelas mãos dele, começou a ressurgir. Veio-me a paz e, no rosto dele, eu vi a alegria de quem confiou em sua própria fé.

Obrigado, meu amigo Eduardo Koaik. E adeus, generoso pai de um filho pródigo. Bom dia.

2 comentários

  1. maria lucia zulzke em 27/08/2012 às 10:28

    Maravilhosa homenagem do Jornalista Cecílio Elias Neto a seus amigos espirituais. Tudo poderia ser depositado em relacionamentos de profissionais e pessoas adultas: intelecto, meios, bibliografias, viagens, discussões… se não existe amor e ternura, simplicidade, empatia e aceitação, paciência e respeito, talvez fosse distante ou impossível a libertação. Apaixonante seu texto sobre reencontro de sua fé, brotou de fonte límpida de lágrimas e perdas, intenso entendimento humano sobre nossas fragilidades. Foi assim que eu li. Abraços de Maria Lucia Zulzke – de São Paulo.

  2. claudinei pollesel em 10/09/2012 às 08:13

    Cecilio,
    impossivel não cair algumas lágrimas lendo seu texto…. seus textos são orações, parabolas, fábulas …. voce é o maior escritor destas paragens! obrigado pela sua vida e pela sua escrita!
    Claudinei Pollesel
    [email protected]

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