Da boa vida, da boa morte.

Não me esqueço de um velório, o de um jovem de 22 anos. Por que pratica o suicídio um moço no esplendor da juventude? A questão – levantada por Camus há décadas – continua atual: o suicídio é a grande questão filosófica ainda em nosso tempo. E, com ele, a perplexidade diante da vida, como se fosse um absurdo viver. Pois, quando a vida se faz absurda, busca-se sentido para ela, busca-se justificá-la ou dar-se-lhe algum ou todos os significados. E não é preciso haver sentido algum para a vida. Ela é, apenas, para ser vivida. Como uma graça especial, como dom, como bem, como bênção.

O próprio Camus, em um de seus mais celebrados livros, “O Estrangeiro”, fala do homem que se vê diante do absurdo, que não encontra o sentido de viver. É quando se torna um estranho para si próprio, um desconhecido, o estrangeiro diante de si mesmo. Esse estrangeiro é o órfão de tudo o que se refira à paternidade e à patriarcalidade: órfão de Deus, órfão de pais, órfão de mestres, órfão de orientadores, órfão do sagrado. O menino suicida, de 22 anos, era órfão dessa patriarcalidade desaparecida do mundo moderno.

Ora, as pessoas estão suicidando-se diariamente. Ou buscando o fim, como se já não mais suportassem tantos equívocos, desatinos e escolhas erradas. As grandes questões filosóficas de todos os tempos parecem estar no início delas mesmas.Voltamos a falar da “boa vida” – que é a expressão máxima da felicidade humana – e insistimos, ainda outra vez, na “boa morte”. E, por “boa vida” e por “boa morte”, queremos entender uma dimensão apenas mesquinha do homem moderno, como se ditadas apenas pela economia e por direitos do consumidor. “Boa vida” é a dos prazeres e dos objetos desejados. “Boa morte” é a abolição da dor. Temos direito tanto à “boa vida” como à “boa morte”, mas parecemos sem saber o que seja uma ou outra. E não saberemos, se não redescobrirmos a sacralidade da vida, o sagrado das coisas, das pessoas, de tudo o que existe.

Não há, na natureza, qualquer espaço para individualismos tolos. A vida é um concerto, sinfonia de que tudo e todos participam. Portanto, solidária. E isso significa que nem a dor humana é individual, pessoal. A dor de um homem é a dor de todos.Como a alegria. Ambas, dor e alegria, têm que ser divididas, repartidas, compartilhadas. Pelo menos, a dois.

As pessoas matam-se, creio eu, da solidão da orfandade. Vivem com espaços d´alma vazios, não preenchidos, sem ombros onde se apoiarem, sem colos onde se aconchegarem. Essa verdadeira idolatria pelo próprio corpo – malhações, plásticas, cirurgias, silicone – transforma o espírito humano em estrangeiro diante de si mesmo. Corpos sem espírito não sobrevivem. O espírito humano, no entanto, vai além da carne finita e frágil. As grandes obras e as idéias apaixonantes sobrevivem à morte de seus autores.

Há pedidos lancinantes de socorro ecoando nos espaços, na solidão de jovens, de crianças. Alguém tem que falar, tem que gritar. E apenas podem falar e gritar aqueles que fizeram a caminhada, homens e mulheres já vividos. Para dizer que as escolhas feitas, quase todas, estão equivocadas. Há que se recomeçar. Pois moços de 22 anos não podem mais se matar de solidão e de orfandade. O sentido da vida está, apenas, em ser-se merecedor dela. Bom dia.

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