Dá zica, dá pipino, dá crepe

picture (54)Piracicabano, que se preze, sabe o que seja “dar zica”. Pois é. Quase deu. Para quem não souber, saiba: “dá zica” é o mesmo que “dá crepe”, “dá peso”, “dá pipino”. Sempre é culpa de “zóio gordo”. Haja, pois, cautela: onde houver “zóio gordo”, “dá zica” logo em seguida. Daí, “dá peso”, “dá crepe” e, quase de imediato, “dá pipino”. São fenômenos sincronizados. Aconteceu um, acontecem todos.

Quase deu. Estava escrito que, um dia, iria acontecer. Amigos, tenho alguns que, vira-e-mexe, me perguntam onde encontro assunto para escrever todos os dias. Por acreditar em “zóio gordo”, faço figa, cruzo os dedos, bato três vezes na madeira. Mas, outro dia, esqueci. Aliás, esqueci, nada. É que não havia madeira por perto. Dizendo-se amigo, o desgraçado sacudia-me a mão, apertando-a: “Difícil, hein, escrever todo dia, hein?” Difícil os caramba, meu! Difícil é “zóio gordo”.

Quase “deu zica” e, portanto, também quase “deu creque” na memória. Haverá quem desconheça o que seja “dá creque” na memória, “dá creque” na cabeça? Vá lá: é o “branco”, pavor de escribas, espécie de impotência mental apavorante. Quando, em qualquer circunstância, “dá branco”, o chilique é imediato. Ao perceber a “zica”, o “creque”, pensei no miserável “zóio gordo”. Mesmo com atraso, dei toc-toc na madeira. Uns dez toc-tocs. Para compensar. E tirei das estantes todos os meus livros de São Cipriano, de rezas, simpatias e ritos especiais.

Dizem que outro santo bom de reza brava e poderosa é Santo Antão. O pouco, porém, que sei dele nunca me animou. Há até quem diga que Antão nunca existiu. Outros narram que ele brigava com os demônios, que foi morar num cemitério, dentro de uma tumba. Tive medo, credo em cruiz. Fico com os livros de São Cipriano, de eficiência e eficácia comprovadas. Especialmente para casos de frouxidão – refiro-me ao “branco”, a impotências mentais – São Cipriano tem um ritual certeiro , ainda que trabalhoso.

Vejamos. É preciso fazer dois bonecos – homem e mulher – confeccionados com pano virgem de algodão de linho. Daí, quando prontos, o fiel terá que unir os bonequinhos como se eles se abraçassem. E, depois, faz a oração que diz… Ora, por que deveria, eu, contar o truque? Quem quiser, deixe de preguiça e se socorra de São Cipriano. Escolher qual dos livros é questão de fé. Tem o “Legítimo” e o “Tradicional Livro Negro”. Por segurança, sugiro os dois ao mesmo tempo.

O fato é que escapei ao “zóio gordo”. Mesmo porque eu tinha lá os meus temas inspiradores. Jornalistas, depois de velhos, já não mais se angustiam tanto com o “branco”, pois guardam assuntos infalíveis na cartola. Iniciantes entram em pânico, mas acabam aprendendo. Assuntos infalíveis? Estão aí, sempre disponíveis: buracos de rua, lixo na calçada, salário de vereador, trânsito bagunçado, dar ou não esmolas, menor desamparado, prostituição, salário mínimo miserável, essas coisas. Há mais de 50 anos, escrevo sobre elas, que pouco mudam. Se eu fosse mais organizado e não tivesse preguiça, bastar-me-ia procurar algum artigo lá da década de 1960 e trocar os nomes dos personagens. Pois o filme ainda é o mesmo.

Aliás, quando o jornalista é iniciante, redator ainda tímido, sempre procuro acalmá-lo diante da possível falta de assunto. Basta levantar a questão que se tornou eterna depois do golpe militar: salário de vereador e a atuação de cada um no Legislativo. Não tem erro. E bom dia.

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