Dando certo, o Brasil brasileiro

picture (89)Houve época em que o Brasil de Lula me dava, como dizem os moços, nó na cabeça. Mas, aos poucos, observando e sentindo, uma idéia levou a outra, isso conduziu àquilo, coisas vividas retornaram e, daquele caos todo, fez-se a luz, “fiat lux”, a claridade. Deve ter sido algo parecido ao “eureka” de Archimedes, ao estalo de Vieira, ao susto de Saulo, caindo do cavalo. Em mim, a chave do enigma estava em Lula e dona Marisa fantasiados nas festas juninas.

A coisa é séria. Se é difícil desatar apenas um nó na e da cabeça, imagine desliar todo um novelo, muitos, mil nós de uma vida inteira. As pessoas pensam conforme seus referenciais, todo um arcabouço de vida, uma complicada arquitetura feita de família, história, geografia, tempo, espaço, carne, espírito, hormônios, crenças – pedacinhos sem fim disso e daquilo. Vê-se e cria-se o mundo a partir de uma realidade pessoal. Quando se pensa estar olhando com os olhos do rosto, olha-se com os olhos de dentro.

Quando o presidente Lula e a primeira-dama Marisa comemoraram as festas juninas vestindo-se a caráter, os meus olhos do rosto viram as fantasias e os olhos de dentro julgaram: “ridículos, grotescos”. A comparação inevitável era com a Rainha Elizabeth e o Príncipe de Gales desfilando em carruagem pelas ruas de Londres, engalanados de medalhas. As suas, mesmo que inglesas, também eram fantasias. Meus olhos de fora viram as máscaras, os de dentro avaliaram: “refinados, majestosos.”

Ora, outra das minhas tantas iluminações de vida eu a tive na descoberta de um Brasil diferente daquele que, pela óptica de São Paulo, pensamos existir. Durante cinco fertilíssimos anos, viajei por cafundós, sertões, caatingas, por litorais e montanhas desses brasis. Quanto mais me levavam ao interior, às profundezas, mais eu entendia o enlouquecimento de Luiz Carlos Prestes ao conhecer a miséria, a infâmia, a desgraça. São Paulo está no Brasil mas não é Brasil. Lula forjou-se em São Paulo, mas a alma tem história nordestina. E eu me esqueci disso.

Pois bem. Há alguns poucos anos, em dias também juninos, eu estava em Salvador. Pelas festas de São João, tudo parou, o Nordeste parou. E a alegria espalhou-se por casas, ruas, quarteirões, nas capitais e no interior. Pobres e ricos e a elite e os serviçais festejaram e festaram na confraternização de casa grande e senzala, algo que a cultura paulista teima ignorar. O Presidente Lula e dona Marisa com o séqüito de ministros de Estados – vestidos de “noivos caipiras” em Brasília – têm sido e são mais brasileiros do que pode supor essa nossa tão vã filosofia.

Quase sempre, o presidente Lula, como recurso oratório, apóia-se na linguagem futebolística, usa expressões do povo, refere-se a artistas populares. Ora, como muitos intelectuais paulistas, eu também franzia o nariz, considerando a comparação “medíocre e vulgar.” Então, deu-se-me o estalo: o tolo era eu. Lula não é professor emérito da USP, que esse já tivemos e não deu certo. Lula não foi eleito por ter estudado na Sorbonne ou por ser poliglota. Lula – sabíamos disso – é um operário que os brasileiros levamos ao poder. Lula pensa, fala, age e se comporta como o povo deste país.

A oratória de Lula, sua comunicação com linguagem popular são a chave do falso enigma alimentado por tolices intelectuais. Ora – espera lá! – esse Brasil de Lula começa a dar certo. Após longos anos, esperanças do povo ressurgem, retoma-se o entusiasmo. Nossos ídolos e referenciais são outros, pensemos na apoteose dos funerais de Dercy Gonçalves. E eu, de minha parte, incomodado com o popularesco e com o populismo, não percebi o mundo em que eu me recolhera: ao som de Bach, estudando a cultura da estética a partir de Schiller. E daí? Lula talvez nunca venha a enlevar-se com Schiller ou Bach. Mas é o Brasil dele que avança. Suécia, Áustria são outros lugares. Ao admitir o óbvio, o nó da cabeça se me desfez. Bom dia.

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