De encantamento

picture (35)Num filme que vi recentemente, uma personagem, amargando angústias, discorre sobre amor e esperança. Diz, ela, do amor: “É melhor ter tido um amor e perdê-lo do que nunca tê-lo tido.” E da esperança: “Melhor nunca tê-la tido do que ter e perdê-la.” Ora, amor, esperança, perdas, como seria viver apenas um que outro, isolar isso daquilo? Conhecem-se os céus por haver infernos; vivem-se infernos na ausência de céus. Segmentar a vida é esterilizar a alma.

Sinto falta, ainda agora, das recentes e longas conversas, em Campinas, com um já idoso e ainda sábio professor meu da universidade, Monsenhor Caran. Falávamos da vida. E do sagrado de viver. E de amores humanos. E dos jovens casais que se unem já acreditando na separação, a certeza de que o rompimento chegará, o “amor eterno enquanto dure.” Não há quem não deseje a eternidade ao lado da pessoa amada. E, no entanto, o amor é, também, descoberta do finito no humano.

É algo que me espanta e ainda noite dessas comentei desse espanto. Pois vi meu pai morrer de amor. Ergui-o do túmulo de minha mãe, onde ele desistiu, clamando por ela, querendo ir a seu encontro. Lembro-me até hoje. Mas não entendo.

Depois que se casou, o quê aconteceu com a Gata Borralheira? E com Branca de Neve, indo-se com o príncipe e levando os sete anões? As velhas contadoras de histórias apenas dizem que os amantes “viveram felizes para sempre”. Mas não contam como. Pois as grandes histórias de amor apaixonado nunca terminaram be.. Estão aí transformadas em romances, em óperas, lendas: Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Abelardo e Heloísa, até mesmo Adão e Eva. São amores trágicos. Já nascem sem esperança.

E, no entanto, homem e mulher continuam unindo-se. Milhões de casais de mãos dadas, envelhecendo juntos. Negando, assim, terem-se acabado os casamentos duradouros. Certamente, não são grandes paixões, mas é o amor fundante, duradouro, que fica: o amor de dileção. Esse é – perdoem-me as novelas – o amor que une homem e mulher numa história comum, gerando filhos, formando família, criando descendência.

A paixão não suporta o cotidiano. Será loucura, imaginar cotidianos de paixão. Não há. Paixão é o sagrado que une céus e infernos num fogo só. Para terminar em cinzas. De tudo e dos dois. Pois ou a paixão mata o cotidiano ou o cotidiano mata a paixão. Ou os apaixonados se matam. O amor de dileção sobrevive a tudo talvez porque, sem alimentar esperanças de ilusões, é o amor em que homem e mulher têm e desejam destino comum, construindo- o.

Talvez, nutrir esperanças no amor seja uma forma de protelá-lo, de negar o que o amor permite e possibilita aqui e agora. Se se encontra um destino, não há que se esperar por ele: apenas há que ir-se em direção. Esperança talvez seja adiar alegrias e dores, até mesmo fugir de amarguras. Esperam-se dias melhores, esperam-se até milagres. Espera-se, espera-se. E ” la nave va”.

Prefiro, agora que a vida algo me ensinou, pensar em crenças e em expectativas, sem apegar-me a esperanças. Viver aquilo em que se acredita, vivendo-o com as vísceras da alma. E, no lugar da esperança, colecionar encantos, estimular encantamentos, viver expectativas. Como o mágico. Como o circo. Fazendo festas e magias, sem, no entanto, descobrir ou ensinar como fazê-las. Pois, quando se descobre, perde-se o encanto. E não creio haja algo tão decepcionante quanto a revelação do enigma, o desvendamento do mistério. Quem aprende as mágicas do mágico decepciona-se.

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