De fila, múmia e panaca

picture (19)Por muito tempo, insisti em negar conflitos de gerações. Candidamente, eu dizia que, conflitos houvesse, eram de pessoas, não de gerações. Era tese dos então jovens pais dos anos 60, lá no outro século – os da “paz e amor, bicho”, lembram-se? – que tinham abolido castigos, punições, cobranças, em nome do diálogo. Nem ensinar, ensinávamos, pois crianças e adolescentes não podiam ser traumatizados.

Minha geração matou o tapinha no bumbum, o “cala a boca”, o “não vai ao cinema” – que julgávamos hediondos sinais de autoritarismo. Filhinhos tinham que falar com pais e professores como se fala entre iguais. Não se tratava de psicologia, mas de psicologismos. Éramos a geração que, buscando a liberdade, rompia tabus e círculos fechados. Acreditando estar abrindo portas, escancaramo-las. E não percebemos estar apenas trocando de ditadura: a dos pais e dos mais velhos, pela ditadura dos filhos e dos jovens.

Ainda hoje, guardo resquícios desse psicologismo inconsistente, querendo convencer-me: o conflito é de pessoas, não de gerações. Logo, o diálogo deve resolver. Mas, como haver diálogo sem civilidade, sem um mínimo de educação, sem respeito? Nem mesmo conversas parece mais haver. São resmungos, são agressões, lei da força, individualismos. Argumentos pouco importam quando a incivilidade prevalece. E a teoria do diálogo, como fica? Pelo visto, foi para os quintos dos infernos. Ou ainda para mais além.

Desde a última vez em que quase fui linchado por um grupo de garotões, decidi evitar toda e qualquer fila, seja de banco, seja de cinema, seja de supermercado, o diabo a quatro, já que me referi aos quintos dos infernos. A última vez foi ainda numa fila de cinema. E eu me senti em paz, moderninho, atualizado, com um imenso saco de pipoca numa das mãos, copo de guaraná na outra, é mole? Então, o garotão apareceu. E furou a fila. Ostensivamente. Logo em seguida, outro garotão, amigo do anterior. E mais dois. Que, também, furaram a fila.

Não acreditei fosse possível tal desrespeito. Não a mim, mas a todos os que estávamos na fila. Nem apenas a todos nós, mas a princípios de civilidade. Uma veia do meu pescoço, acho que a jugular, começou a latejar, a pulsar mais forte. E minha descoberta metafísica, já escrevi a respeito disso, é ser na veia jugular que se concentram a capacidade de indignação, a razão, a tolerância, a civilidade, a paciência da pessoa humana, incluindo a teoria de que o diálogo resolve. Se eu não reagisse, a jugular iria explodir.

Derrubando pipoca no chão, tentei conversar com os garotos, aquela discurso idiota de democracia, de direitos, de respeito. Apalermados, os moços olhavam-me com aquele que Nelso Rodrigues chamava de “olhar bovino”, como se, em mim, eles vissem um fantasma ou alguém saído de asilo de doidos. Já contei como terminou. Envergonhada, minha ex-mulher entrou na livraria ao lado, fingiu não me conhecer. Mesmo só, prossegui em minha pregação cívica, desfiando meu credo civilizatório: não se deve furar filas, fila é uma das mais sagradas instituições democráticas, conversa mole e tal. Dois velhinhos ouviam-me, pensei fossem aplaudir-me. Mas um rapaz me vaiou. Em seguida, outro. E as vaias se fizeram sonoras, estrepitosas, trovejantes. Um rapagão arregaçou a manga e mostrou os músculos tatuados. “De onde saiu essa múmia?”, falou um. “Qual é a sua, panaca?”, gritou outro.

Desisti. Na livraria, a ex-mulher esperava-me com xícaras de café, como se soubesse, por antecipação, o final do espetáculo. Quando eu quis comentar, ela, sem erguer os olhos da revista, resmungou: “Panaca é pouco.” E foi minha última vez de ficar em fila. Bom dia.

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