De pensante a pensador

PensanteVoltou-me, então e de novo, uma vontade absurda –vontade que eu diria carnal – de ir-me em busca de Maritain, de repousar em Bernanos, de recolher-me em Merton, o misto de necessidades contraditórias, de paz e de inquietação. É como se eles e um tempo estivessem cobertos de poeira, apenas à espera de alguém espaná-la. Então, um brilho esplêndido reapareceria, para cegar ou para iluminar.

Não há que se espanar livros, mas a poeira do tempo. Para que reapareçam Tristão de Atayde, Gustavo Corção, revistas e livros da Civilização Brasileira, da Vozes, o debate, o conflito, a busca. Cadê meu “Lições de Abismo”, em que prateleira ficou? E as cartas de Maritain para Raïssa? E as reflexões de Thomaz Merton, as “de um espectador culpado”?

Tínhamos menos de 30 anos, quando tudo explodiu. “O sonho acabou”, falou John Lennon. Aquele sonho. Pois, haveria outros. Mas não sabíamos. A cada violência da tirania, a cada golpe na liberdade, eis que nascia um novo sonho, eis que se impunha o desejo de romper a casca do ovo daquela serpente. Já não éramos mais atores de nada. O mundo sonhado fora feito em cacos. De atores, ficamos espectadores. E, no palco, os novos atores eram, também, autores. Eles escreviam e interpretavam a peça da ditadura, alterando o roteiro, mudando cenas, conforme o humor de cada apresentação.

Certa vez e não há muito tempo, o ensaísta Roberto Pompeu de Toledo lamentou-se da ausência “dos grandes homens”. Pois havia, no Brasil e no mundo, lideranças admiráveis. Expunham idéias, fincavam estacas e balizas, estabeleciam referenciais e valores. Um livro marcou os jovens intelectuais de minha geração, livro de um desses “grandes homens”: de Thomas Merton, “Reflexões de um espectador culpado”. Eram notas, meditações, pequenas análises, a partir das quais Merton buscava equacionar a presença do homem no mundo. .

De sua vida monástica, ele descortinou um olhar generoso e sábio em direção aos tempos. Profeta, Thomas Merton anteviu a chegada do “pensamento único”, do ser humano robotizado. Foi a grande ironia: quando se condenava o mundo comunista por querer destruir a individualidade do homem, foi o mundo ocidental e capitalista quem o fez. Merton enxergou antes. E, sentindo-se espectador culpado, escreveu pensamentos que se tornaram nichos onde repousar a consciência.

É cada vez mais angustiante o massacre da mundialização econômica, da perda de identidade dos povos, da destruição de culturas regionais e nacionais, do poder absoluto que se deu à economia. De repente, eis que estamos levados, novamente, a ser meros e simples espectadores, sem qualquer ação ou atuação no palco da História. Vemos o espetáculo sem ter qualquer expectativa. Se, antes, conseguíamos ser espectadores e expectadores, vendo mas admitindo a possibilidade de mudanças, espectadores com expectativas – hoje, a impotência é maior. Expectativas quase não mais existem, pouco há que esperar. Somos espectadores sem ser expectadores: não expectamos, não temos expectação. Apenas espectamos, olhamos, assistimos. Somos culpados por espectar sem expectar.

Mas, do caos, nasce a luz. Pois, quando o espectador não tem qualquer expectativa diante daquilo que vê, nada mais lhe resta senão romper com o que existe. Thomas Merton já nos advertia sobre os “homens bem pensantes”, que pensam uns igualmente aos outros. Nenhum era pensador. Falavam para espectadores que obedeciam. Se voltar a pensar, o espectador poderá ser expectador. E, de apenas pensante, poderá ser pensador. Tomara. Bom dia.

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